José Augusto Guilhon Albuquerque* - O Estado de S.Paulo
Que o tempo é dinheiro tornou-se uma evidência a priori no mundo capitalista, diferentemente das sociedades ditas primitivas e daquelas, como a nossa, em que a longa transição para a universalização do mercado ainda retém regiões significativas da cultura, das ideologias e do sistema de trocas, que recusam a moeda como equivalente universal de valor. Uma das contribuições mais notáveis de Marx para a compreensão do capitalismo é sua definição da determinação do valor da força de trabalho: é o tempo de trabalho necessário à reprodução da força de trabalho.
Com isso Marx estabeleceu as bases conceituais para que todos os valores na sociedade capitalista tenham um princípio de equivalência medido pelo tempo. Daí a concluir que tempo é dinheiro e, portanto, é poder, não é mais do que um passo, já que o dinheiro é reconhecidamente um dos principais recursos de poder.
Mas estamos no nível dos conceitos. As pessoas não se orientam apenas pelo mercado e não se comportam sempre, nem exclusivamente, como se o seu tempo fosse dinheiro. As pessoas que dispõem de mais tempo não têm mais dinheiro nem mais poder do que as que têm menos tempo. Ao contrário, acredita-se popularmente que os mais poderosos "não têm tempo para nada".
Na verdade, os mais poderosos - entre eles os mais ricos - podem ter tempo para tudo, porque não se trata da quantidade de tempo de que um indivíduo dispõe: teoricamente todos dispõem de tempo igual, 24 horas por dia. Trata-se de como se administra o tempo, e especialmente o tempo dos outros. O tempo - esse tempo que é dinheiro e que é poder - é elástico uma vez que se pode - dispondo de tempo e dinheiro - administrar o tempo dos outros. A verdade verdadeira é que nem todos somos iguais perante o tempo.
Nesse sentido a contribuição de Maquiavel é mostrar que a desigualdade entre os grandes e o povo, que está na base da constituição do Estado, também se aplica ao tempo, seu significado e seu uso. Assim, antes mesmo de sua equivalência ao dinheiro, Maquiavel mostrava a equivalência do tempo ao poder.
Todos conhecem a máxima maquiaveliana, segundo a qual, o Príncipe, para conservar o poder, deve fazer de uma vez todo o mal que precisa ser feito, e distribuir as benesses pouco a pouco, ao longo do tempo. O tempo joga, portanto, a favor do Príncipe e em detrimento do povo. A necessidade torna o povo refém do imediato, impossibilitado de administrar seu próprio tempo. Assim sendo, o tempo só é poder para quem pode administrar seu próprio tempo e o dos demais.
Existe uma versão folclórica da diferença entre o tempo de quem exerce o poder e o tempo dos demais. Essa versão consiste na noção de que quem exerce o poder se faz esperar, cujo corolário é que o mais poderoso chega por último. Ela só tem vigência no Brasil porque nossa sociedade ainda tem um pé no atraso senhorial e o tempo não é totalmente dinheiro, mas sobretudo prestígio, hierarquia.
Mais interessante é a administração do tempo no processo eleitoral porque, neste caso, a máxima de que nem todos são iguais diante do tempo tem implicações estratégicas. Por exemplo, nem todos têm a mesma possibilidade de desencadear o processo eleitoral, e quem exerce esse poder está administrando o tempo do adversário e, portanto, limitando seu acesso a esse recurso de poder.
Em condições normais pode-se supor que quem não está no poder tem pressa e, portanto, interesse em desencadear a oposição, pondo o governo na defensiva. Quem está no poder, ao contrário, tem interesse em prolongar ao máximo sua prerrogativa, escolher o momento mais adequado a seus interesses e adiar ao máximo a hora em que deixa de ser o supremo mandatário para se tornar um competidor entre outros - ou para ser um mero observador de outros competidores, caso não possa concorrer a mais um mandato.
Este é apenas mais um dos enigmas do atual processo eleitoral: com mais de dois anos de antecedência ao período eleitoral "normal", o Príncipe, como se fosse povo, condena-se ao imediatismo e, como se fosse oposição, abre mão de sua prerrogativa de fazer o tempo e a hora de sua sucessão, para tornar-se um competidor entre outros. Mais que isso, o Presidente Lula apostou numa vitória antecipada na disputa por sua própria sucessão, ao definir as eleições municipais de 2008 como plebiscitárias. E fez mais que isso: escolheu ele mesmo seu oponente e a hora e o lugar em que iria derrotá-lo - em São Paulo. Em vão: não houve plebiscito nem derrota do opositor, nem decisão antecipada de 2010.
Com isso, a campanha arrasta-se a perder de vista. E só se pode entendê-la se admitirmos que Lula tornou-se chefe da oposição a José Serra. Escolhe a candidata, dita a estratégia, faz os comícios mas não poderá ser o cabeça de chapa.
O poder do tempo é o de ser um recurso de poder, que tem duas mãos: quem não sabe administrar o tempo corre o risco de ser administrado por ele.
*Professor titular de Relações Internacionais aposentado do Departamento de Economia da FEA-USP e autor de O Intervencionismo na Política Externa Brasileira (Revista Nueva Sociedad).
Com isso Marx estabeleceu as bases conceituais para que todos os valores na sociedade capitalista tenham um princípio de equivalência medido pelo tempo. Daí a concluir que tempo é dinheiro e, portanto, é poder, não é mais do que um passo, já que o dinheiro é reconhecidamente um dos principais recursos de poder.
Mas estamos no nível dos conceitos. As pessoas não se orientam apenas pelo mercado e não se comportam sempre, nem exclusivamente, como se o seu tempo fosse dinheiro. As pessoas que dispõem de mais tempo não têm mais dinheiro nem mais poder do que as que têm menos tempo. Ao contrário, acredita-se popularmente que os mais poderosos "não têm tempo para nada".
Na verdade, os mais poderosos - entre eles os mais ricos - podem ter tempo para tudo, porque não se trata da quantidade de tempo de que um indivíduo dispõe: teoricamente todos dispõem de tempo igual, 24 horas por dia. Trata-se de como se administra o tempo, e especialmente o tempo dos outros. O tempo - esse tempo que é dinheiro e que é poder - é elástico uma vez que se pode - dispondo de tempo e dinheiro - administrar o tempo dos outros. A verdade verdadeira é que nem todos somos iguais perante o tempo.
Nesse sentido a contribuição de Maquiavel é mostrar que a desigualdade entre os grandes e o povo, que está na base da constituição do Estado, também se aplica ao tempo, seu significado e seu uso. Assim, antes mesmo de sua equivalência ao dinheiro, Maquiavel mostrava a equivalência do tempo ao poder.
Todos conhecem a máxima maquiaveliana, segundo a qual, o Príncipe, para conservar o poder, deve fazer de uma vez todo o mal que precisa ser feito, e distribuir as benesses pouco a pouco, ao longo do tempo. O tempo joga, portanto, a favor do Príncipe e em detrimento do povo. A necessidade torna o povo refém do imediato, impossibilitado de administrar seu próprio tempo. Assim sendo, o tempo só é poder para quem pode administrar seu próprio tempo e o dos demais.
Existe uma versão folclórica da diferença entre o tempo de quem exerce o poder e o tempo dos demais. Essa versão consiste na noção de que quem exerce o poder se faz esperar, cujo corolário é que o mais poderoso chega por último. Ela só tem vigência no Brasil porque nossa sociedade ainda tem um pé no atraso senhorial e o tempo não é totalmente dinheiro, mas sobretudo prestígio, hierarquia.
Mais interessante é a administração do tempo no processo eleitoral porque, neste caso, a máxima de que nem todos são iguais diante do tempo tem implicações estratégicas. Por exemplo, nem todos têm a mesma possibilidade de desencadear o processo eleitoral, e quem exerce esse poder está administrando o tempo do adversário e, portanto, limitando seu acesso a esse recurso de poder.
Em condições normais pode-se supor que quem não está no poder tem pressa e, portanto, interesse em desencadear a oposição, pondo o governo na defensiva. Quem está no poder, ao contrário, tem interesse em prolongar ao máximo sua prerrogativa, escolher o momento mais adequado a seus interesses e adiar ao máximo a hora em que deixa de ser o supremo mandatário para se tornar um competidor entre outros - ou para ser um mero observador de outros competidores, caso não possa concorrer a mais um mandato.
Este é apenas mais um dos enigmas do atual processo eleitoral: com mais de dois anos de antecedência ao período eleitoral "normal", o Príncipe, como se fosse povo, condena-se ao imediatismo e, como se fosse oposição, abre mão de sua prerrogativa de fazer o tempo e a hora de sua sucessão, para tornar-se um competidor entre outros. Mais que isso, o Presidente Lula apostou numa vitória antecipada na disputa por sua própria sucessão, ao definir as eleições municipais de 2008 como plebiscitárias. E fez mais que isso: escolheu ele mesmo seu oponente e a hora e o lugar em que iria derrotá-lo - em São Paulo. Em vão: não houve plebiscito nem derrota do opositor, nem decisão antecipada de 2010.
Com isso, a campanha arrasta-se a perder de vista. E só se pode entendê-la se admitirmos que Lula tornou-se chefe da oposição a José Serra. Escolhe a candidata, dita a estratégia, faz os comícios mas não poderá ser o cabeça de chapa.
O poder do tempo é o de ser um recurso de poder, que tem duas mãos: quem não sabe administrar o tempo corre o risco de ser administrado por ele.
*Professor titular de Relações Internacionais aposentado do Departamento de Economia da FEA-USP e autor de O Intervencionismo na Política Externa Brasileira (Revista Nueva Sociedad).
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