No Blog do Nobalt
Em seu “Poemas Inconjuntos”, Fernando Pessoa diz que somos mais que uma pedra ou uma planta: nós sentimos, pensamos, sabemos e elas não, e que por isso devemos ter ideias sobre as coisas. E diz:
Sim: há uma diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas;
Só me obriga a ser consciente.
E é exatamente isso o que eu estava procurando para dizer sobre certa tendência que vejo neste início de uma campanha eleitoral que se apresenta bem feia...
Nem bem começou e as paixões afloram violentas, exigindo que todos tenhamos opinião formada, candidato escolhido, quase que nos obrigando a declarar em cartório: esse é o meu voto e não o alterarei até outubro de 2010!
Essas paixões estão levando a uma disputa tipo jogo de futebol e com as torcidas se comportando como os temidos “hooligans”. Chega a ser patético. Tenho lido coisas na Internet que até Deus duvidaria!
E os boatos que já começam a circular? Todo cuidado é pouco. Temos que ler tudo com muita atenção, consultar juristas, médicos, psiquiatras, sei lá mais quem, para não cairmos na esparrela ou, pior, para não sair por aí reproduzindo boatos. O terreno está pantanoso...
Não tenho teorias sobre os candidatos, na verdade sobre nenhum deles. Tenho opinião muito forte sobre o Governo Lula e sobre o lulopetismo, isso sim. Depois de quase 8 anos, seria muito estranho não saber o que penso dele e das lulices, em série infindável.
Mas tomei consciência de um fato, depois das eleições de 2002: alerta vermelho contra marqueteiros! Por exemplo, querer transformar José Serra num galã meigo e terno, que na foto da capa de VEJA nem careca é: com que intuito fizeram isso? Se é o que me passou pela cabeça, fico profundamente ofendida: será que foi para agradar ao eleitorado feminino? Para que nós, mulheres, nos apaixonemos por ele?
Será que pensam tão pouco de nós que acham que votamos num cara porque ele é lindo e gatinho e não votaríamos caso ele continuasse com a mesma expressão austera de sempre, e que foi seu maior trunfo até agora?
Outro exemplo: a candidata do presidente Lula. Penso não entrar em sua vida privada ao dizer que após quase oito anos de cargos muito bem remunerados e com o auxílio-eleição (não sei que outro nome dar à mesada que o PT lhe oferece) ela deve ser uma senhora que pode se vestir nas melhores lojas de roupas femininas aqui do Brasil e até do exterior. Mas não é o que está acontecendo.
Quando ela era ministra da Ciência e Tecnologia ou Chefe da Casa Civil da Presidência, andava corretamente vestida, diria até elegante, com terninhos bem cortados e muito apropriados para as funções que exercia. E usava sempre um belo e legítimo fio de perolas no pescoço.
Agora, candidata a presidente da República, dona Dilma parece que compra suas roupas no armarinho da esquina, usa bijuterias de segunda e anda fazendo o gênero auxiliar de escritório, mal paga, classe média emergente.
Para que isso? Por que essa imagem falsa? Se é para criar entre ela e o povão a mesma empatia que o liga a Lula, desistam, porque não é por aí. Lula é de fato um deles, sempre foi. Não é o caso de dona Dilma que teve outra infância, outra trajetória de vida, com nada em comum com a do seu patrono.
Não falo de dona Marina porque ela anda muito caladinha. Nem sei bem por onde anda. É verdade que a campanha de verdade ainda nem começou. E as poucas vezes em que a vejo em jornais ou na TV, está sempre a Marina Silva de sempre. Tomara que não mude apenas para cativar eleitores. Mas não creio. Ela pode não ter os mesmos percentuais nas pesquisas, mas classe, isso é com ela mesmo!
Tudo isso, confesso, só para declarar que não tenho candidato. Só tenho uma firme convicção: não quero mais viver no Brasil dominado pelo lulopetismo. Para usar um assunto muito recente: prefiro um governo no qual o Ministro das Relações Exteriores tira os sapatos ao entrar em um país cuja Imigração assim o exige de todos os que lá chegam, do que um onde o ministro vai se dar ao luxo de dar uma carteirada bem cucaracha: “Com quem vocês pensam que estão falando?”
Quer dizer, prefiro a civilização.
Gostaria por fim de mencionar algo que muito me impressionou. Dia 19 de abril foi o aniversário de nascimento do Presidente Getúlio Vargas. Quando ele se matou eu tinha 16 anos. Dali a um mês completaria 17. Lembro perfeitamente da dor do Brasil todo. Do silêncio. Das lágrimas. Do ambiente de luto profundo. Em vida ele foi adorado pela maioria dos brasileiros. Morto, foi pranteado pela quase totalidade do país. Seu aniversário passou em branco...
Brasília fez 50 anos. Odes á cidade. Ou críticas candentes. Mas de seu criador e fundador, que foi um ídolo, que foi muito amado em vida, pouco ou nada se disse. A glória e a fama são mesmo coisas efêmeras.
O último pensamento inconjunto: votar é obrigatório. É de lei. Para mim, já nem é mais, mas pretendo votar. Só que não é obrigatório nem ter candidato tão cedo no ano eleitoral e nem revelar o voto antes da hora. Ou até depois da hora!
Devagar se vai ao longe e não me quero culpada outra vez. 2002 ainda pesa muito em minha alma.
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