VALDO CRUZ na Folha.com
Obrigado a abrir mão de sua candidatura ao governo em Minas em nome do projeto de eleger Dilma Rousseff presidente, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel diz que apoiar Hélio Costa "estava no preço, não podemos fingir" e que agora terá de fazer um trabalho de "convencimento" para garantir que a militância petista apoie o peemedebista.
Criticado nos bastidores pelo grupo paulista do PT depois da crise envolvendo o suposto dossiê contra José Serra, Pimentel admite que deixará de atuar no "lado operacional" do comando da campanha de Dilma, mas garante que continua tendo o apoio dela para participar das reuniões de decisões estratégicas e políticas.
Sobre o suposto dossiê, responde com uma série de negativas. Diz que "nunca" ouviu falar de dossiê e que nunca viu "mais gordo" o delegado aposentado Onézimo Souza, que acusa o jornalista Luiz Lanzetta de ter pedido investigações sobre o candidato tucano.
A seguir, trechos da entrevista concedida por telefone de Belo Horizonte:
FOLHA - Você está frustrado com o desfecho em Minas?
FERNANDO PIMENTEL - Eu queria ser candidato, mas sabíamos que a lógica era prevalecer o acordo nacional com o PMDB.
A divisão do PT mineiro impediu o partido ter candidato?
Impedir, não, mas contribuiu um pouco para isso. Mas não é esse, vou dizer com clareza, o motivo. Isso ocorreu, mas é secundário. O principal é que a aliança nacional com o PMDB, feita no ano passado, pressupunha que o PMDB marcharia conosco com a candidatura Dilma e nos cederia o tempo de televisão e o vice, em troca disso nós flexibilizaríamos em todos os Estados em que o PMDB tivesse candidatos com chances reais de ganhar, teria a primazia na aliança. Isso foi claro. Era o caso de Minas Gerais.
Foi o preço a ser pago?
Estava no preço, não podemos agora fingir. Dou toda razão à militância que se engajou nesse processo de estar chateada. Mas é da lógica do processo. Nós fizemos uma escolha. Queremos e vamos eleger a ministra Dilma presidente da República. Para isso, tínhamos de flexibilizar em vários lugares. Eu, pessoalmente, não me sinto mal nessa história, chateado, porque acho que estamos dentro de um projeto, grande, coletivo, nacional, que contempla todo mundo, que em nome dele podemos, sim, adiar planos, mudar planos, estratégias. Agora, vou ser candidato ao Senado. Tenho uma chance razoável de ser eleito. Vou trabalhar pela chapa unificada do ministro Hélio Costa e pela campanha da Dilma. Acho que no final todos sairemos lucrando.
O que garante que a militância do PT, que preferia um candidato do partido, irá fazer campanha para Hélio Costa?
Vamos ter um trabalho agora, um esforço de convencimento das pessoas. O PT está inteiramente unificado no Estado no projeto de manter a continuidade do governo Lula, elegendo a ministra Dilma Rousseff. Em nome desse projeto, eu tenho certeza que nós conseguiremos mobilizar a militância. Claro que nesses primeiros dias vamos ter um rescaldo, um esfriar dos ânimos que estavam aquecidos nessa reta final.
Alguns partidos da base não vão seguir a aliança, como o PSB.
A base aliada é outra coisa. Vamos ter de trabalhar. O PSB acho mais complicado, porque tem uma grande identidade com o governo Aécio. E foram muito claros nas últimas reuniões que marchariam conosco se eu fosse o candidato. Sendo o Hélio, eles não se sentiriam comprometidos com esse projeto, mas vão estar com a ministra Dilma.
Vai prevalecer o voto Dilmasia (ou Anastadilma) em Minas?
Não sei, é cedo para fazer esse tipo de avaliação. Que pode haver um pouco desse voto, pode, não vamos dizer que os eleitores mineiros não poderão fazer esse tipo de escolha. Poderá. Seria um voto misto, já aconteceu aqui o voto Lulécio, então há possibilidade de acontecer. Em que grau? Depende muito da forma que vamos conduzir a campanha regional e como vai repercutir a campanha nacional em Minas. Então, é cedo para fazer avaliação. Acho que pode haver, sim, não vamos descartar, mas vamos trabalhar para que o voto não seja assim. No caso do voto do PT, não vai haver dilmasia, os eleitores do PT são muito fiéis, determinados, então, se o palanque for PMDB e PT, eles vão votar nessa chapa. Isso pode dar 25%, 30%, que é a base eleitoral do partido. Agora, para além disso, aí é que o voto pode ficar composto de outra forma. O eleitor que não tem fidelidade partidária e que busca contemplar a situação dos dois governos, talvez opte pela continuidade em Minas. Mas vamos ter de esperar para ver.
A leitura, diante do suposto dossiê contra Serra e da definição do candidato em Minas, é que o sr. sai enfraquecido no plano nacional. Vai se afastar da campanha de Dilma?
Não, em princípio, não. Agora, claro, vou ter de dividir meu tempo entre a campanha ao Senado e a coordenação.
Irá se afastar do dia a dia da campanha?
Do operacional da campanha, provavelmente não terei como acompanhar tão de perto. Do ponto de vista de tempo, terei uma limitação maior agora, mas seguramente não haverá prejuízo na participação política na coordenação, nas decisões estratégicas. É assim que eu entendo e é assim que acho que a ministra Dilma entende. Eu falo com a ministra todo dia, por telefone, pessoalmente, todos os dias temos contato. O suposto desgaste existe muito mais na leitura que é feita de fora do que propriamente internamente. Ao contrário, dentro o que eu tenho é muito apoio, solidariedade de muitos companheiros, principalmente da ministra, da candidata, até por questão de amizade pessoal, sempre me dando todo suporte principalmente nesse período em que fui alvo dessa intriga, com a qual não tenho nada, mas acabei um pouco sendo alvejado. Eu não poderei ficar a semana inteira em Brasília, eu já não estava ficando. Mas eu não vejo prejuízo para a campanha, temos dois grandes dirigentes da campanha, Palocci e José Eduardo, que estão em tempo integral porque abriram mão de suas candidaturas. Isso supre perfeitamente. E como eu trabalho em total e completa sintonia com esses dois companheiros, tocamos de ouvido, eu não vejo prejuízo maior.
Mas a candidata Dilma ficou irritada com a demora na definição de Minas, chegou até a te cobrar.
Deixa eu explicar o que aconteceu, as pessoas às vezes exageram. Fizemos uma reunião de coordenação para decidir todas as questões de alianças no país com o PMDB. Nessa reunião, como eu estava presente, o caso de Minas foi relatado. E nessa reunião decidiu-se, por consenso, inclusive com a minha concordância, que nós não protelaríamos mais a decisão em Minas Gerais. Não houve irritação, houve uma decisão colegiada. Como a convenção do PMDB está marcada para o dia 12, e o prazo dado para Minas foi dia 7, decidimos cumprir esse prazo. Havia a possibilidade de esticar um pouquinho, esperar novas pesquisas, pedir para adiar, essa era a pressão que vinha do diretório estadual de Minas. Mas eu não referendava, eu estou ali completamente neutro na história, porque sou personagem, não posso referendar posição que me favorece.
O suposto dossiê envolveu uma guerra de grupos dentro do PT, opondo os paulistas e os mineiros?
Essa é uma leitura feita de fora, sem dados internos, que se leva a esse tipo de avaliação. Na verdade, não há uma guerra nesse sentido. O que aconteceu, que foi superdimensionado pela imprensa, foi esse encontro do jornalista Luiz Lanzetta com esse delegado aposentado da Polícia Federal [Onézimo Souza], do qual não tínhamos tomado conhecimento até que ele veio a público pela imprensa, e que tratava-se ali de uma questão, a meu juízo, privada, entre duas empresas. O Lanzetta tem uma empresa de comunicação e foi consultado pelo delegado de serviços que ele poderia prestar. E agora o delegado deu uma entrevista dizendo que não foi isso. Nunca envolveu ninguém além dos dois.
Eles dizem que havia preocupação com vazamentos de informações dentro da campanha e que desejavam investigar os responsáveis.
Eu nunca soube disso, nem ninguém da campanha soube, que havia essa preocupação dos jornalistas, do Lanzetta, com essa questão do vazamento. Ele deve ter ficado preocupado, como empresário, prestador de serviço, de estar saindo informações na imprensa, de dentro do escritório dele, porque aquela casa não é da campanha, é escritório onde funciona a empresa de comunicação dele. Imagino que seja isso. Estou supondo, nem sei se esse vazamento ao qual ele se refere é esse, deve ser. Não havia nada que indicasse a necessidade de uma grande operação.
O delegado diz que foi ao encontro convidado pelo sr.
Não sei de onde ele tirou essa ideia, nunca tive contato com ele.
Nem por telefone?
Nunca, nem por telefone, nem por email. A primeira vez que eu o vi na vida foi nesses retratos publicados numa revista semanal. Nunca vi mais gordo. E não tenho qualquer predileção para estar conversando com arapongas, com ex-policiais, com gente que lida nessa área.
Ali falou-se muito num dossiê contra o ex-governador José Serra, que estava sendo elaborado contra ele. A campanha tinha interesse nesse dossiê? O que o sr. sabia dele?
Nada, absolutamente nada, nunca ouvi falar de dossiê contra o ex-governador Serra. Não trabalho com esse tipo de prática, acho deplorável, já fui vítima disso como prefeito. E se tem alguém que não tem nenhum interesse em fazer dossiê contra tucano, sou eu. Eu sou o contrário disso. A crítica que se faz a mim dentro do PT é o contrário, é de ser muito próximo, muito amigo de dirigentes e parlamentares do PSDB, de ter uma trajetória pública ligada a isso. Então, escolham outro para fazer essa calúnia, porque em mim não vai colar.
Há duas versões no episódio do dossiê. O Lanzetta diz que não pediu investigação de Serra, o delegado diz que sim. O que aconteceu ali?
O jornalista Lanzetta apresenta testemunhas, gente que estava com ele, para corroborar o que disse e desafia o delegado a fazer uma acareação com ele. O que me leva a crer que está falando a verdade.
O sr. foi responsável pela contratação do Lanzetta. Ele não fazia relatos desses encontros ao sr.?
Não, não. Eu conheci o jornalista Luiz Lanzetta há muito pouco tempo, na campanha do Márcio Lacerda a prefeito de BH. Na verdade, ele tem contrato com a secretaria de comunicação do PT. Eu apresentei, mas ele não precisava de apresentação.
O jornalista Amaury Ribeiro Jr. trabalha na equipe do Lanzetta?
Que eu soubesse, não. O Lanzetta me disse que é amigo há muitos anos do Amaury, mas não tem qualquer vínculo com a empresa dele.
Vocês sabiam do livro do Amaury sobre os bastidores da privatização do governo FHC, em que falaria de familiares do candidato tucano José Serra?
Eu não sei de onde tiraram essa história. Estou sabendo agora, que ele estava fazendo há muito tempo, mas li na internet.
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