quinta-feira, 10 de junho de 2010

Adeus ao PT, carta de Sandra Starling


Página 13 publica a carta de Sandra Starling.

Não compartilhamos sua decisão e seguimos na luta, dentro do PT. Mas compartilhamos sua indignação, tanto com o mérito da decisão adotada (o apoio ao candidato Hélio Costa), quanto com a postura daqueles que se julgam proprietários do Partido, como se a vitória na prévia lhes tivesse dado o direito de vender o mandato recebido.

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”

Ao tempo em que lutávamos para fundar o PT e apoiar o sindicalismo ainda “autêntico” pelo Brasil afora, aprendi a expressão, que intitula este artigo. Era repetida a boca pequena pela peãozada, nas portas de fábricas ou em reuniões, quase clandestinas, para designar a opressão que pesava sobre eles dentro das empresas.

Tantos anos mais tarde e vejo a mesma frase estampada em um blog jornalístico como conselho aos petistas diante da decisão tomada pela Direção Nacional, sob o patrocínio de Lula e sua candidata, para impor uma chapa comum PMDB/PT nas eleições deste ano em Minas Gerais.

É com o coração partido e lágrimas nos olhos que repudio essa frase e ouso afirmar que, talvez, eu não tenha mesmo juízo, mas não me curvarei à imposição de quem quer que seja dentro daquele que foi meu partido desde sempre. Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982. Lá se vão 28 anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para aquele amontoado de gente de todo jeito: pobres, remediados, intelectuais, trabalhadores rurais, operários, desempregados, professores, estudantes. Íamos de casa em casa tentando convencer as pessoas a se filiarem a um partido que nascia sem dono, “de baixo para cima”, dando “vez e voz” aos trabalhadores. Nossa crença abrigava a coragem de ser inocente e proclamar nossa pureza diante da política tradicional.

Vendíamos estrelinhas de plástico para não receber doações empresariais. Pedíamos que todos contribuíssem espontaneamente para um partido que nascia para não devermos nada aos tubarões.

Em Minas, tivemos a ousadia de lançar uma mulher para candidata ao governo e um negro, operário, como candidato ao Senado. E em Minas (antes, como talvez agora) jogava-se a partida decisiva para os rumos do país naquela época. Ali se forjava a transição pactuada, que segue sendo pacto para transição alguma.

Recordo tudo isso apenas para compartilhar as imagens que rondam minha tristeza. Não sou daqueles que pensam que, antes, éramos perfeitos. Reconheço erros e me dispus inúmeras vezes a superá-los. Isso me fez ficar no partido depois de experiências dolorosas que culminaram com a necessidade de me defender de uma absurda insinuação de falsidade ideológica, partida da língua de um aloprado que a usou, sem sucesso, como espada para me caluniar.

Pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa: participei de uma prévia para escolher um candidato petista ao governo, sem que se colocasse a hipótese de aliança com o PMDB. Prevalece, agora, a vontade dos de cima. Trocando em miúdos, vejo que é hora de, mais uma vez, parafrasear Chico Buarque: “Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde”.

Sandra Starling


Fonte : Página 13

3 comentários:

  1. É mais do que incrível esta declaração da Sandra Starling, que acompanhamos de longe, por décadas, como um baluarte daquele PT, radical sim, mas repleto de princípios e autenticidade.
    Sandra indo, e o que resta?
    Delúbios se contratando como paraninfo de universitários carentes de grana e caráter, para falar de ética?
    Se a Sandra cita magistralmente nosso Chico, me arrisco a citar Rauzito, já que se trata de "realismo fantástico", onde a realidade é muita mais surpreendente que a ficção:
    - Pare o mundo, que eu quero descer!
    Mas, quando pessoas de caráter se vergam, mas não quebram, a esperança resiste, e arricamos olhar em frente com otimismo, mesmo que tudo isto pareça um caminho sem fim.
    Sandra, nos mande seu novo endereço, que ajudamos a organizar a fila de visitas.
    Saudações, Eduardo Buys

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  2. Essa é a prova de que no socialismo também há evolução. Das estrelinhas de plástico ao valerioduto e mensalão. A viuvez da "perestroika" latina se concretiza poeticamente nas ladeiras de Minas, e Chico Buarque continuará sonhando. Tuka, seu blog é show!!!

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  3. Avançar a qualquer custo pode comprometer a batalha. Às vezes é preciso recuar para, com um melhor planejamento e mais estrutura, vencer a batalha.
    Acabou o tempo dos projetos pessoais e do heroísmo sem sentido. É preciso planejamento e estrutura. É preciso união para que possamos levar adiante a batalha com resultados positivos. É preciso pragmatismo na luta. Alianças são necessárias para ganharmos força.
    Acredito que temos um projeto maior e que, recuando por vezes, conseguiremos implantar no Brasil uma democracia popular e forte, voltada para o povo e não para uma meia dúzia de dominantes em detrimento de milhões de sacrificados.

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