quarta-feira, 9 de junho de 2010

Analistas alertam para superaquecimento

Nem a expansão do investimento (18%) seria suficiente para sustentar crescimento da economia sem uma forte pressão inflacionária


Alexandre Rodrigues / RIO - O Estado de S.Paulo

A expansão forte do investimento entre o último trimestre do ano passado e o primeiro deste ano elevou a taxa de investimento nacional a 18% do PIB, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas esse avanço não é suficiente para sustentar o crescimento da capacidade de produção das empresas e, portanto, da economia sem uma forte pressão inflacionária.

Nem as estimativas otimistas do BNDES apontavam para esse resultado, mas os técnicos do banco calculam que, para manter um ritmo de crescimento econômico anual entre 5% e 5,2%, o País precisa de uma taxa de investimento de 22% do PIB. O banco projeta para 2012 esse patamar de investimento, mas o mercado considera essa estimativa também otimista.

Entre os parceiros do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil tem a menor relação de investimento em relação ao PIB. No ano passado, marcado pela lenta recuperação da crise econômica mundial, a China registrou taxa de investimento de 43%; a Índia, 34%, e a Rússia, 20%. No Brasil, essa relação havia despencado para 16,7% do PIB.

Para Marcelo Nascimento, economista da área de pesquisa econômica do BNDES, os números do IBGE confirmam o restabelecimento das condições anteriores à crise, mas ele admite que ainda é pouco para a expansão segura da economia. O banco revisou ontem de 18,6% para 19% do PIB a sua projeção da taxa de investimento na economia em 2010, mesmo nível do pré-crise.

Taxa baixa. O economista Aurélio Bicalho, do Itaú-Unibanco, concorda que o País começa a se recuperar da grande queda na taxa de investimento ocorrida na crise mundial no final de 2008 e início de 2009. Contudo, aponta que "a taxa de investimento ainda é baixa para que a economia possa crescer a taxas superiores ao nível de 4,5% e 5%. Para ele, os sinais são de que o País está crescendo acima da capacidade de oferta.

Embora a relação investimento/PIB não seja a ideal, o economista do BNDES acredita que o crescimento econômico puxado pelo investimento e pelo setor industrial indica um cenário mais ameno do que se imagina. "A elevação do investimento está aumentando a capacidade produtiva para a frente", diz Nascimento.

Para ele, a partir dos próximos dois trimestres haverá aumento da capacidade produtiva. "Já vai aliviar a indústria e serviços para que a gente siga no passo de crescimento a taxas razoáveis. Não podemos olhar para esse trimestre e achar que é um sinônimo de tudo o que vai acontecer durante o resto do ano", alerta.

Baixa poupança. A taxa de poupança no primeiro trimestre foi de 15,8% do PIB. No primeiro trimestre de 2009 havia sido de 14,3%. Apesar da alta, ainda continua, na média de quatro trimestres, em apenas 15%. Para vários economistas, essa baixa poupança doméstica faz com que o aumento dos investimentos provoque déficit nas contas externas - ainda mais se a taxa de investimentos subir para mais de 20%, como deseja o governo. Com o crescimento econômico, as importações disparam.

Para o Nascimento, do BNDES, a taxa de investimento de 43% da economia da China é invejável e tem relação com o tipo de crescimento experimentado naquele país. Os investimentos chineses estão concentrados principalmente na construção civil e em infraestrutura, que têm reflexo de longo prazo.

Máquinas e equipamentos. Já no Brasil, a expansão do investimento é maior no componente relativo a máquinas e equipamentos, que influencia mais o curto prazo. Por isso, o BNDES acredita que metade do patamar chinês é suficiente para o Brasil.

"Nosso investimento tem uma vantagem em relação ao de outras economias. A maior participação dele, quase 56%, é de máquinas e equipamentos. É a parcela mais produtiva do investimento e que tem ligação direta com a ampliação de oferta. Esse é o componente mais eficaz na ampliação de capacidade produtiva", diz Nascimento.

Para ele, a expansão do investimento será mais lenta a partir de agora, mas deve atingir 21,5% já em 2011 e 22% em 2012.

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