sábado, 12 de junho de 2010

Crise europeia já reduziu a oferta de crédito, diz Mantega

Ministro da Fazenda afirma que medida afeta a renovação de dívida pelas empresas brasileiras no exterior e que os alemães exageraram no corte de gastos de 81,6 bilhões em quatro anos


Fabio Graner / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

A equipe econômica começa a enxergar impactos da crise europeia no Brasil e a demonstrar temor com o excesso de corte de gastos nas principais economias da região, que prejudicaria o crescimento europeu e afetaria a economia brasileira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliou em entrevista ao "Estado" que a crise na Europa já reduz a oferta de crédito, afetando a renovação de dívida pelas empresas brasileiras no exterior.

Mantega mostrou maior preocupação com a guinada conservadora em termos de política fiscal que está em curso na Europa. O ministro mencionou, especificamente, o anúncio do governo alemão, feito esta semana, de corte de gastos de 81,6 bilhões em quatro anos.

O ministro considera o ajuste fiscal alemão "muito forte", "exagerado". E avalia que essa não é a receita mais adequada para o momento porque vai na direção contrária de estimular o crescimento econômico, tão necessário para os países europeus, até mesmo para que haja uma melhora das contas públicas desses países. "Esse ajuste fiscal alemão pode levar a um retardamento do crescimento naquele país", disse. Como a Alemanha tem a mais forte economia da Europa, uma desaceleração naquele país tem impacto sobre todo o continente e também no mundo.

Segundo ele, na última reunião do G-20, ocorrida há um mês na Coreia do Sul, foi debatida a questão da política fiscal no mundo e os países ficaram divididos entre os que defendem um ajuste moderado, que não prejudique o crescimento, e outros que apoiam ajustes agressivos.

O ministro Mantega disse que o Brasil está no primeiro grupo - acompanhado de China e Estados Unidos - e, por isso, promoveu um corte de R$ 10 bilhões no Orçamento de 2010.

Dilema. Para os técnicos da equipe econômica, a Europa vive um dilema que o Brasil experimentou por muitos anos no passado: atravessar uma crise econômica com os investidores externos temendo a insolvência fiscal e, por isso, ser forçado a promover ajustes fiscais que acabam por reforçar o ciclo de recessão econômica. Com a deterioração da atividade econômica incentivada por agressivos cortes de gastos, as contas públicas acabam por piorar, refletindo a queda das receitas e a deterioração dos indicadores em proporção do Produto Interno Bruto (PIB), como a relação dívida/PIB e o déficit nominal - resultado de receitas e despesas depois dos juros.

É nesse contexto que deve ser lida a defesa feita por Mantega de uma posição moderada na política fiscal.

Apesar de acreditar que é preciso melhorar a situação das contas públicas, já que as dúvidas sobre países como a Grécia se referem à capacidade de os governos honrarem compromissos, o Brasil acredita que é preciso cuidado para que a tesoura não corte demais e agrave as dificuldades econômicas desses países.



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