Autoridades brasileiras que visitassem fóruns internacionais como as reuniões do BIS e do G-13 nas últimas semanas voltariam tomadas por grande pessimismo sobre a economia mundial. Nos Estados Unidos, o sonho de uma recuperação em V já desapareceu, e atualmente a preocupação central do Federal Reserve é com a deflação, que jogaria a economia norte-americana em um segundo mergulho recessivo. Os dados recentes mostram que a recuperação tem sido lenta mesmo diante das maciças compras pelo Fed de bônus do tesouro e de títulos lastreados em hipotecas. Se na sua última reunião o Fed não tivesse decidido retomar essas compras, estaria iniciando um gradual aperto monetário que retardaria ainda mais a recuperação, correndo o risco provocar uma nova onda recessiva.
Na Europa as perspectivas de crescimento são ainda piores. Se a partir de maio deste ano o Banco Central Europeu (BCE) não tivesse passado a comprar títulos de dívida soberana de países com problemas de solvência, provavelmente estaríamos assistindo a uma nova crise bancária, com consequências recessivas profundas sobre a Europa e o mundo. Comparada com os Estados Unidos a Europa tem grande fragilidade fiscal, o que retarda ainda mais seu crescimento. Com dívidas públicas muito grandes com relação ao PIB, os países industrializados da área do euro têm menores graus de liberdade no uso de estímulos fiscais, e este problema é ainda mais grave nos países da periferia do euro.
A piora das perspectivas de crescimento mundial traz de volta a lembrança do mergulho recessivo dos países industrializados e do Brasil em 2008, e eleva as pressões para uma maior flexibilidade monetária e para uma política fiscal mais expansionista. A tentação de seguir esse caminho cresce na medida em que as autoridades brasileiras sejam contaminadas pelos temores das autoridades do mundo industrializado mostrados naquelas reuniões. É aqui que mora o perigo.
Em 2008, a crise mundial afetou o Brasil porque provocou o colapso do crédito mundial, que não é algo que esteja à vista no presente. Nem está à vista uma queda do total das exportações mundiais. Indiretamente em 2008 o Brasil foi vítima da crise bancária que se iniciou nos Estados Unidos e migrou para a Europa. Porém, como a saúde do sistema bancário brasileiro não foi afetada, e como o Banco Central rapidamente agiu para evitar o empoçamento de liquidez e para restaurar o financiamento de exportações usando as reservas, ocorreu uma rápida restauração do crédito, criando as condições para a recuperação. Quando o Banco Central baixou a taxa de juros e o governo engajou-se em uma política fiscal expansionista, o Brasil estava pronto para sair da recessão.
Riscos eliminados. Atualmente há apenas uma desaceleração do crescimento mundial, ainda que forte, e não uma recessão, e não vemos o desenvolvimento de uma crise bancária, cujos riscos foram praticamente eliminados nos Estados Unidos. Embora a crise de dívida soberana na Europa seja uma espada pendurada sobre a cabeça dos bancos, as autoridades europeias vêm tomando medidas para reforçar a corda que a sustenta. A percepção dos mercados, estampada em todos os indicadores que medem o grau de aversão ao risco, é de que é muito baixa a probabilidade de uma nova crise bancária. Ou seja, não se vê pela frente um "choque externo" que provoque uma queda do crédito no Brasil, que deverá continuar se ajustando apenas em resposta ao crescimento da demanda doméstica, cuja expansão é a fonte principal impulsionando o crescimento do PIB.
Há atualmente uma queda apenas transitória da inflação, mas a economia brasileira está aquecida, o que projeta uma retomada da inflação que, na ausência de uma forte desaceleração vinda da economia mundial, requer ainda um ajuste na taxa de juros. Felizmente a taxa real de juros no Brasil mostra clara tendência declinante, e o ajuste necessário é menor do que costumavam ser no passado. O Banco Central pode optar entre completar este ajuste, trazendo a inflação para a meta em um horizonte razoável, ou engajar-se na acomodação monetária, deixando para 2011 um legado de inflação mais alta.
Ao lado disso, a política fiscal continua expansionista. Embora o governo tenha removido os incentivos do IPI à compra de automóveis, os superávits primários continuam abaixo da meta. São superávits suficientes para evitar o crescimento da dívida líquida em proporção ao PIB, mas expandem a demanda agregada em uma economia já aquecida.
Por outro lado, a dívida pública líquida não está crescendo, mas a dívida bruta cresce aceleradamente. A acumulação das reservas internacionais explica apenas em parte essa diferença. A outra parte é explicada pelos recursos que o Tesouro vem repassando a instituições financeiras públicas - notadamente o BNDES. Como o Tesouro não tem estes recursos no orçamento emite títulos da dívida pública, elevando a dívida pública bruta, deduzindo-os para chegar à dívida líquida sob o argumento de que adquiriu créditos contra o BNDES. Até 2007 estes repasses flutuavam em torno de uma média de 0,5% do PIB, e atualmente atingem 7% do PIB!
Este mecanismo está sendo usado para provocar um "choque de crédito" no sistema econômico, que expande a demanda agregada. No último Relatório de Inflação foi incluído um box que desenvolve o argumento de que devido ao aumento do crédito bancário em proporção ao PIB cresceu a eficácia da política monetária. A demonstração do Banco Central somente seria válida caso toda a expansão do crédito respondesse endogenamente aos estímulos econômicos, como os provenientes da taxa de juros e da atividade econômica. Mas se em parte este crédito estiver se expandindo exogenamente, sem responder a estímulos econômicos, atua deslocando autonomamente a demanda agregada. Com a sua política de "escolher os campeões" o BNDES vem contribuindo para expandir a demanda, atuando na mesma direção expansionista dos superávits primários mais baixos.
Inflação. O que se conclui é que mesmo antes deste hipotético comparecimento aos fóruns internacionais e ao BIS, no qual as autoridades brasileiras teriam sido contaminadas pelo temor de uma desaceleração mais forte, já vinham praticando doses elevadas de acomodação monetária e de estímulos fiscais. O risco que o Brasil corre neste momento é o do exagero. E neste caso a vítima será a inflação em 2011, com a conta sendo cobrada na forma de uma redução maior no crescimento econômico.
Nenhum comentário:
Postar um comentário