terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ao estudar o Haiti, especialistas descobrem novo ângulo sobre a intensidade de um terremoto


Meninas de um orfanato de Croix des Bouquets, no Haiti, cuidam de duas gêmeas de 11 meses que perderam os pais durante o terremoto que abalou o país

Meninas de um orfanato de Croix des Bouquets, no Haiti, cuidam de duas gêmeas de 11 meses que perderam os pais durante o terremoto que abalou o país
The New York Times
Henry Fountain
Quando um terremoto de magnitude 7 atingiu em janeiro a capital do Haiti, Porto Príncipe, a enorme destruição e perda de vidas foram atribuídas em grande parte a dois fatores: a proximidade da cidade da falha que causou o tremor e as construções de má qualidade que permitiram que milhares de prédios ruíssem facilmente.
 Os sismólogos sabem que a geologia local também pode afetar a severidade de um terremoto, ao aumentar as forças sísmicas sob certas condições. Acreditava-se que era o que tinha acontecido no terremoto haitiano, já que grandes áreas de Porto Príncipe estão sobre camadas de rocha sedimentar relativamente macia, que ajuda a amplificar as ondas sísmicas.
 Agora, um novo estudo aponta que além da geologia do terreno, a geometria dos elementos da superfície local também contribuiu para a intensidade do terremoto. Susan E. Hough, uma sismóloga do Levantamento Geológico dos Estados Unidos, e seus colegas encontraram evidência de que o tremor foi amplificado ao longo de uma cadeia estreita de rocha sólida, ao sul do centro da cidade. Sobre a cadeia se encontravam um hotel popular e outras estruturas relativamente bem-construídas, que foram destruídas.
 A conclusão, publicada online no domingo na revista “Nature Geoscience”, deve ajudar os cientistas e planejadores a mapearem as áreas da cidade sob risco em futuros terremotos, um processo chamado microzoneamento.
 Hough disse que os sismólogos há muito sabem que o que é chamado de amplificação topográfica pode ocorrer, mas frequentemente era desprezada como “uma coisa por acaso”.
 “Não é algo que os cientistas conseguiram desenvolver de forma sistemática”, ela disse. “Camadas sedimentares são o que as pessoas entendem.”
 Havia indicações a partir dos danos causados pelo terremoto de que a cadeia, no subúrbio de Petionville, sofreu um abalo severo.  Hough disse que além da destruição no Hotel Montana, onde se hospedavam muitos visitantes estrangeiros, as baterias de 3 mil quilos de uma instalação de telefonia celular mais a oeste na cadeia se deslocaram mais de 30 centímetros.
 Mas há poucos dados do movimento do solo local durante o terremoto, que matou 230 mil pessoas, segundo estimativas oficiais. Na época, disse Hough, o Haiti contava com apenas um sismógrafo, um instrumento para fins educativos que estava montado de forma imprópria.
“Quando ocorreu o terremoto, ele saiu dançando em seus pequenos pés”, ela disse. “Ele fez um registro, mas não foi muito útil.”
 Então Hough, com a ajuda de cientistas do Birô de Minas e Energia do Haiti, instalou oito sismógrafos portáteis, incluindo dois na cadeia e dois em um vale adjacente, os utilizando para medir a movimentação do solo durante alguns dos muitos tremores secundários que ocorreram após o terremoto. Eles apontaram que os tremores ao longo da cadeia foram mais severos do que no vale, de forma que não podem ser explicados pela amplificação nas rochas sedimentares sob o vale.
Hough comparou o tremor ao longo da cadeia ao que pode ocorrer em um arranha-céu.
“Se você começa a sacudir uma cadeia longa e fina, ela balança de um lado para outro, como um grande prédio”, ela disse.
 As ondas sísmicas refletem internamente dentro de uma estrutura geométrica semelhante a uma cunha na cadeia, combinando para produzir forças de pico mais alto, um processo chamado interferência construtiva.
 Dominic Assimaki, um professor do Instituto de Tecnologia da Geórgia que revisou o artigo de Hough para a “Nature Geoscience”, mas não esteve envolvido na pesquisa, disse que as conclusões podem ajudar no desenvolvimento de modelos mais precisos dos processos de amplificação durante terremotos.
 “Analiticamente, o problema foi estudado extensamente, mas os modelos são bastante idealizados”, ela disse.
 À medida que as simulações por computador se tornam mais detalhadas e combinam mais precisamente com os dados do mundo real, elas podem ser utilizadas para o desenvolvimento de diretrizes para construções resistentes a terremotos –quanto movimento pode ser esperado em uma cadeia de certa altura ou inclinação, por exemplo.
 “O objetivo é traduzir o que encontramos na pesquisa em parâmetros simples, que um projetista possa empregar”, disse Assimaki.
 Especificamente no Haiti, disse Hough, os cientistas que estão desenvolvendo mapas de microzoneamento agora podem incorporar em seu trabalho os efeitos topográficos vistos ao longo da cadeia, para ajudar o país a reconstruir de forma apropriada e melhor sobreviver ao próximo terremoto. E futuros terremotos naquela falha ou próximos dela são inevitáveis, dizem os sismólogos.
 “Potencialmente é possível dizer: ‘Você deve construir aqui, não ali’”, ela disse.
 Hough disse que mesmo na cadeia, com seu abalo severo, algumas casas e prédios bem construídos e bem ancorados sobreviveram ao terremoto praticamente ilesos.
 “Isso mostra que é possível construir com segurança, mesmo em zonas como essa”, ela disse. “Basta apenas saber o que você poderá enfrentar.”
“A boa notícia é de que podemos caracterizar o abalo”, ela acrescentou. “Nós podemos realizar projetos com base nisso.”
Tradução: George El Khouri Andolfato

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