no Josias de Souza
Há dois lulas na praça: o Lula Jekyll e o Lula Hyde. Durante a campanha, só de raro em raro o monstro permitiu que o médico se manifestasse.
Na pele de Dr. Jekyll, Lula viajava aos Estados para cumprir compromissos oficiais do presidente.
À noite, transmudado em Mr. Hyde, Lula exibia Dilma Rousseff nos palanques e desancava os adversários.
Não queria apenas derrotar os rivais. Almejava estraçalhá-los, destroçá-los. Se prossível, extirpá-los.
Mesmo depois do triunfo eleitoral, o monstro se manifestaria na primeira entrevista de Lula. Ao lado de uma Dilma já eleita, chamou os opositores de “raivosos”.
Pois bem. Na noite desta sexta (6), o Lula ocupou uma cadeia nacional de rádio e TV. Encenou o papel de médico.
Depois de instilar desrespeito por quatro meses, pregou o respeito:
“É importante que governo e oposição, sem abrir mão de suas posições, respeitem-se mutuamente".
Após o ciclo de rara incivilidade, defendeu o início de uma fase madura e civilizada:
"Passadas as eleições, quando é compreensível que o calor da disputa gere confrontos mais duros...”
“...É importante que governo e oposição, sem abrir mão de suas opiniões, respeitem-se mutuamente e divirjam de forma madura e civilizada".
Nada de estaçalhar ou extirpar. Tornou-se, de repente, cultor das liberdades democráticas:
"Os escolhidos para governar devem ter a liberdade para organizar suas equipes e colocar em prática suas propostas [...]...
“...Já aqueles a quem o povo colocou na oposição devem ter a liberdade de criticar e apontar os erros dos governantes, para [...] se constituir como alternativa".
Colecionador de multas por transgressões à legislação, até a Justiça Eleitoral o presidente elogiou.
Nos palanques, Lula Hyde exibira-se de cabeça para baixo, de trás para diante e pelo avesso.
Na rede nacional de rádio e TV, Lula Jekyll revelou-se personagem de rara sensatez.
A melhor maneira de você acreditar no bom senso de um é aguardar pela próxima aparição tresloucada do outro. Não resolve nada. Mas evita a decepção.
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