sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os argelinos estão prontos para protestar, apesar da proibição


Le Monde

A marcha de Argel, prevista para sábado (12) e convocada pela Coordenação Nacional para a Mudança e a Democracia (CNCD), está mantida apesar da proibição a manifestações que prevalece na capital argelina desde a grande e sangrenta manifestação cabila de janeiro de 2001. Em Oran, a wilaya (administração) também proibiu qualquer tipo de passeata. “Muitos argelinos querem sair, mas em Argel, de acordo com a imprensa, 30 mil policiais serão deslocados para impedi-los”, lamenta Mustapha Bouchachi, presidente da Liga Argelina para a Defesa dos Direitos Humanos (LADDH).
Fundada em 21 de janeiro, a CNCD, que reúne um grupo heterogêneo de partidos de oposição, associações e sindicatos autônomos, exige o fim do estado de emergência “efetivo e imediato”, a “liberdade de expressão” e sobretudo uma “mudança de regime”. No total, 245 advogados pediram para que fosse mantida a passeata, que deverá ter até a participação do deputado Abderrazak Mokri, vice-presidente do Movimento pela Sociedade e pela Paz (MSP), ex-Hamas, um partido islâmico, mas membro da coalizão presidencial. Já a Frente das Forças Socialistas (FFS) não se juntou ao movimento.
As revoltas tunisianas e egípcias certamente estão na mente de todos, mas para muitos ela não constitui um modelo. “Pedir pela saída do presidente Abdelaziz Bouteflika não mudaria nada, o problema argelino é mais complicado”, afirma Bouchachi. “Existe um poder oculto. É praticamente um país administrado por telefone”. Para o deputado Said Sadi, presidente da União para a Cultura e a Democracia (RCD), cujo apelo para um comício, no dia 22 de janeiro, foi impedido pelas forças de segurança, “o regime político argelino está historicamente em declínio”.
No dia 3 de fevereiro, o presidente argelino prometeu o fim do estado de emergência, em vigor desde 1992, e anunciou uma série de medidas sociais (auxílios-moradia, diminuição dos preços de certos produtos básicos, fim da perseguição às atividades comerciais informais...). Partidos políticos, não reconhecidos por anos, poderão finalmente obter sua autorização. É o caso da União para a Democracia e para a República (UDR), do ex-ministro da Saúde, Amara Benyounes, cujo caso está pendente desde julho de 2004, ou da Frente Democrática do ex-primeiro-ministro Sid Ahmed Ghozali, sem resposta desde 2000.
Mas a desconfiança continua sendo de lei. “A promessa de suspender o estado de emergência foi acompanhada do anúncio de uma nova lei antiterrorista. Para mim, está claro que o estado de emergência irá continuar sob um outro nome”, garante Ghozali. Em 1992, lembra, ele era primeiro-ministro quando o estado de emergência foi decretado “por um ano”. “Em seguida”, continua, “aquilo continuou ano após ano, mesmo depois da reconciliação nacional, mas dessa vez para restringir as liberdades públicas”.
Temor de violência
Para o ex-premiê, “o governo acredita que ele ainda tem a escolha, e busca um meio de regenerar o regime, mas ele se privou de qualquer intermediário com o povo, e quanto mais ele mergulha na obstinação, mais se aproxima do confronto direto com as ruas”. Muitos temem novos atos de violência na Argélia, profundamente marcada pela guerra civil dos anos 1990, que seguiu a ascensão do islamismo. “Nós vivemos essa revolta em 1988, quando os jovens disseram ao FLN: “saia!”, analisa Benyounes. “As pessoas não têm vontade de voltar para o caos”.
Portanto, o sucesso da marcha de Argel continua incerto, mas o aumento do número de incidentes demonstra um clima social deteriorado. Em janeiro, os tumultos deixaram muitos mortos na Argélia e mais de dez pessoas tentaram se imolar com fogo. Três delas morreram.
Em 5 de fevereiro, surgiu uma outra associação. A Aliança Nacional para a Mudança (ANC), lançada pelo ex-chefe do governo Ahmed Benbitour, associa vários movimentos: El-Islah, o Movimento da Juventude para o Desenvolvimento (MJD), El-Infitah, a Associação dos Ulemás Argelinos e organizações sindicais. Entre os objetivos da ANC figura a elaboração de uma carta da oposição. Benbitour exige “um mínimo de condições que possam garantir as liberdades individuais e coletivas” , enquanto o secretário-geral do movimento islâmico El-Islah, Djamel Ben Abdeslam, pede pela realização de um encontro entre o governo e a oposição para uma “reconstrução do Estado”.
Tradução: Lana Lim

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