quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Carrefour admite rombo de R$ 1,2 bi em operações no Brasil


Finanças. Perdas foram identificadas em uma auditoria feita pela KPMG na companhia, e se referem basicamente a erros na contabilidade; presidente mundial do grupo diz que as responsabilidades sobre o problema serão investigadas a fundo

Rodrigo Petry - O Estado de S.Paulo
A rede varejista francesa Carrefour anunciou ontem que os gastos extraordinários com erros nas práticas contábeis de suas operações no Brasil vão atingir este ano algo próximo a R$ 1,2 bilhão ( 550 milhões), após o encerramento dos processos de auditorias interna e externa, coordenadas há cinco meses pela KPMG.
Isso representa praticamente o triplo da estimativa inicial divulgada em outubro pela companhia, que superava os R$ 400 milhões ( 180 milhões). A empresa investiga ainda a existência de possíveis responsáveis.
Entre os problemas identificados pelas auditorias estão erros no recebimento de "bonificações do varejo", que são valores pagos pela indústria aos supermercados, como forma de desconto na aquisição de mercadorias, que o Carrefour estava reconhecendo no balanço financeiro, mesmo sem ter realizado efetivamente a totalidade das vendas. A auditoria apontou ainda problemas "de ajustes de depreciação e inventário e provisões para litígios trabalhistas e fiscais".
"O que aconteceu no Brasil foi claramente um mau funcionamento", afirmou o executivo-chefe do Carrefour, Lars Olofsson, durante teleconferência com analistas e investidores, segundo a agência Dow Jones. "Estamos determinados a fazer o que for preciso para chegarmos ao fundo do que eu classifiquei como má administração." Segundo ele, os valores resultaram de problemas acumulados ao longo dos últimos cinco anos.
Os executivos do Carrefour anunciaram ainda a redução em 130 milhões da expectativa de lucro operacional em 2010, para 3 bilhões. Essa retração leva em consideração não só os encargos extraordinários das operações brasileiras, mas também o "ambiente econômico e competitivo persistentemente difícil" na França, as duras condições econômicas do Sul da Europa, particularmente na Itália, na Espanha e na Grécia, além de excluir do cálculo a contribuição financeira das operações da Tailândia, que foram vendidas em novembro.
Mesmo com o prejuízo nas operações brasileiras, o Carrefour garante que não pretende deixar o País e priorizará a expansão de lojas com formatos menores e da rede Atacadão. A empresa pretende ainda converter alguns hipermercados Carrefour para lojas do Atacadão, rede adquirida em 2007. "O Brasil é um mercado prioritário, em que temos uma posição de liderança e confiança na equipe", afirmou Olofsson.
Nos últimos cinco meses, a empresa informou que acelerou a expansão do Atacadão, com a abertura de sete novas unidades e a transformação de um hipermercado em São Miguel (SP) para Atacadão. A empresa inaugurou ainda um hipermercado Carrefour em Belo Horizonte (MG).
Essa não foi a primeira vez que o Carrefour revisou a provisão para despesas extraordinárias no Brasil, que serão reconhecidas como receitas não operacionais. Em outubro, a companhia elevou este montante de 90 milhões para 180 milhões, diante dos primeiros resultados da auditoria. Todos esses problemas provocaram a troca do comando de suas operações, que desde julho pertence ao executivo brasileiro Luiz Fazzio, substituto do francês Jean Marc Pueyo.
Vendas. Além dos problemas contábeis, a rede enfrenta dificuldade com as vendas de seus hipermercados, que apresentaram queda de 0,8% nas lojas com mais de um ano de funcionamento no terceiro trimestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado. Os resultados do Carrefour no Brasil foram compensados pelo desempenho das lojas da rede Atacadão, que avançaram 12,8% no conceito mesmas lojas no terceiro trimestre.
Em comunicado, a empresa informou que, nos últimos cinco meses, reestruturou a equipe comercial, com a contratação de executivos do mercado nacional e internacional, e implementou novas ferramentas de gestão. A empresa revisou também procedimentos internos, com a utilização de novos sistemas de controle, "seguindo as novas políticas de governança corporativa do grupo".
Dentro desse processo de reestruturação, vários executivos, além de Pueyo, deixaram a empresa. Entre eles estão Manoel de Araújo, diretor comercial de alimentos; Pedro Magalhães, diretor financeiro; Roberto Britto, diretor geral do Atacadão; e o francês Eric Reiss, diretor de hipermercados.

PONTOS-CHAVE
Ásia
O Carrefour, que atravessa um momento delicado, vendeu suas operações na Tailândia para o rival francês Casino (foto), que no Brasil é sócio do Grupo Pão de Açúcar

Queda
130 milhões euros
é a expectativa de redução do lucro operacional do Grupo Carrefour este ano em relação ao inicialmente previsto
Troca
Problemas na operação brasileira, que se acumulam há pelo menos cinco anos, levaram este ano à substituição do ex-presidente do grupo no País, o francês Jean Marc Pueyo
Investigação
O presidente mundial do Carrefour, Lars Olofsson, disse que será feito o que for preciso para se chegar ao fundo do que ele chamou de "má administração" 


Missão dos EUA via no governo Lula foco de antiamericanismo e corrupção


Andre Dusek/AE
Andre Dusek/AE
Jobim. 'Homem de confiança' de Washington

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA - O Estado de S.Paulo
Um governo permeado pela corrupção, defensor de posições polêmicas em relação ao Irã e com um profundo sentimento antiamericano. Essa era a percepção que a diplomacia americana mantinha sobre o governo Lula, de acordo com mensagens sigilosas trocada pelo embaixador no Brasil e o Departamento de Estado entre 2008 e 2009. As mensagens foram divulgadas ontem pela organização WikiLeaks.
Os documentos escancaram uma realidade de desconfiança mútua e uma acirrada disputa no interior do governo brasileiro sobre qual estratégia adotar em relação a Washington.
Do lado americano, não se esconde a necessidade de contar com o Brasil como um estabilizador na América Latina, obrigando a Casa Branca a insistir em aprofundar a relação.
Isso não impediu, porém, que os diplomatas americanos fizessem avaliações duras sobre Lula, indicando uma gestão marcada pela corrupção entre seus "mais próximos aliados", assolado pela "praga" da compra de votos e sem ter dado uma resposta ao crime no Brasil. A crítica é feita pelo ex-embaixador americano em Brasília, Clifford Sobel. "O governo Lula tem sido afetado por uma grave crise política", afirma o documento, citando "escândalos e tráfico de influência".
"A principal preocupação popular - crime e segurança pública - não diminuiu durante sua administração (de Lula)", informa um telegrama enviado ao Departamento de Estado.
O documento, de 2008, insinua que o Bolsa-Família o ajudou se reeleger em 2006. "Lula foi eleito em 2002 em grande parte pela promessa de promover um agenda social ambiciosa, incluindo generosos pagamentos aos pobres. Diante da popularidade dessas medidas, ele foi reeleito em 2006", completou. Um outro documento deixa clara a percepção americana sobre o Brasil: "Cooperação amistosa. Mas não uma forte amizade."
Para Washington, a resistência vem diretamente do Itamaraty que "mantém uma tendência antiamericana". "O governo de centro-esquerda tem evitado uma cooperação mais estreita em temas políticos e militares e tem nos mantido a uma certa distância dos temas de segurança."
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, numa viagem aos EUA, em 2008, atacou a decisão americana de instalar bases na Colômbia - principalmente diante de um memorando que indicava que a medida seria uma forma de lidar com "governos não amistosos". Para Jobim, isso seria a evidência da falta de entendimento dos EUA sobre a região. O ministro disse aos americanos que "teve de discutir o assunto com o presidente e apelar por moderação da parte de Lula".
Em alguns pontos, Jobim teria posição similar à dos EUA e, portanto, seria visto como um aliado de Washington. Jobim, por exemplo, admitiu que o governo de Hugo Chávez teria o potencial de "exportar instabilidade" para toda a região. Jobim teria feito o comentário em encontros com o embaixador Sobel.
Na conversa, Jobim insinuou que o Brasil não reconhecia publicamente a presença das Farc na Venezuela por razões políticas. "Ele afirmou que, se ele reconhecesse o fato, arruinaria a habilidade do Brasil de mediar a questão", afirma o documento.
O ministro da Defesa também teria confidenciado a Sobel que o presidente da Bolívia, Evo Morales, disse a Lula que tinha um tumor no nariz. O presidente brasileiro o teria convidado a tratar-se em São Paulo. A Bolívia negou a informação.
Na esfera global, o que chama a atenção dos EUA seria a obsessão do Brasil em conquistar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Em um telegrama secreto de 2008, a embaixada em Brasília disse que a ambição por um lugar na ONU levou o País a se comprometer no envio de tropas ao Haiti.
REVELAÇÕES
Antiamericanismo
Num dos trechos mais explosivos, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teria dito que o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, "odeia os EUA e trabalha para criar problemas na relação (entre Washington e Brasília)"
Confiança
Os documentos revelam que, para o governo dos Estados Unidos, Jobim é "talvez um dos mais confiáveis líderes do Brasil"
Bolívia
Ministro brasileiro da Defesa teria confirmado que Evo Morales "sofre de um sério tumor nasal"
Venezuela
Para Jobim, "isolar Chávez acabaria provocando uma maior radicalização", que contaminaria outros países da região. Ele também teria dito que as Farc agem na Venezuela


Petistas buscam fórmula para deter o 'blocão'



Denise Madueño - O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA
O PT deflagrou um movimento para tentar impedir a formação de blocos parlamentares na Câmara a fim de facilitar as negociações da futura presidente, Dilma Rousseff, no Congresso e se manter como a maior força na disputa com o PMDB por espaços na Casa. O PT já avisou a cúpula do PMDB que assinará o acordo pelo qual dividirão o comando da Casa nos próximos quatro anos, mas quer o fim do "blocão".
O PMDB tem reiterado a disposição de formalizar um bloco com PR, PTB, PP e PSC, para reunir 202 deputados. O megabloco, com 55 deputados a menos do que a maioria absoluta da Casa, poderá deixar Dilma refém do interesse desses partidos.
Para o governo, é mais fácil aparar arestas com cada partido do que negociar com a quase maioria da Casa para aprovar projetos e as reformas constitucionais. O "blocão" atrapalha também as pretensões do PT. O partido ficaria isolado e sem o poder de escolher presidências de comissões importantes na Casa.
Líderes do "blocão" não atenderam ao apelo do PT em reunião, ontem, com petistas e o líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP). "Vamos montar o bloco. Não há intenção de confronto. Fortalece os partidos menores", disse o líder do PP, João Pizzolatti (SC). 

Blairo Maggi pode ir para Agricultura



Senador eleito do Mato Grosso viaja com Dilma a Tucuruí; e Izabella Teixeira ganha 'lobby' de Lula para ficar no Meio Ambiente

João Domingos e Leonêncio Nossa, Enviados Especiais - O Estado de S.Paulo
TUCURUÍ (PA)
O ex-governador e senador eleito Blairo Maggi (MT) pode ser o nome do PR para o ministério de Dilma Rousseff. Embora não houvesse nenhum motivo especial, ele foi convidado a acompanhá-la ontem à viagem a Tucuruí, para a inauguração de duas eclusas no Rio Tocantins. O nome de Maggi - grande produtor de soja em Mato Grosso e o maior plantador individual do grão no mundo - tem sido lembrado para ocupar o Ministério da Agricultura.
Como Dilma tem dito que os ministérios não serão entregues aos partidos que os comandam hoje, cresceram as apostas de que o ex-governador pode ocupar a pasta que está com o PMDB e para a qual o partido indicou o ex-deputado Wanger Rossi.
A possível escolha de Maggi, visto como adversário por muitos defensores do meio ambiente, convivia ontem com o "palpite" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a pasta do Meio Ambiente continue nas mãos da ministra Izabella Teixeira - fiel militante contra abusos cometidos por ruralistas ligados a Maggi. Lula chamou a bióloga de "companheira" em discurso feito a trabalhadores na usina do Estreito, em Tucuruí.
Desde o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o PR ocupa o Ministério dos Transportes. Primeiro, com o atual prefeito de Uberaba, Anderson Adauto; depois, com o senador amazonense Alfredo Nascimento, que pretende voltar para lá. A eventual escolha de Maggi poderia atrapalhar os planos de Nascimento.
Quem permaneceu o tempo todo ao lado de Dilma foi a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, candidata à reeleição derrotada pelo tucano Simão Jatene. Ana Júlia fez chegar à presidente eleita o desejo de ser chamada para uma diretoria da Eletronorte ou do Banco da Amazônia.
Meio Ambiente. A possibilidade de Izabella Teixeira ficar no Ministério do Meio Ambiente ganhou força com as referências sobre ela feitas por Lula em discurso a trabalhadores da hidrelétrica de Estreito, na divisa entre Maranhão e Tocantins. O presidente, na prática, já a tratou como ministra de Dilma.
"A gente vai preservar o meio ambiente e produzir muito mais. E a Izabella será a companheira, a parceira disso", afirmou o presidente, ao comentar que Dilma continuará as ações na área ambiental e de energia adotadas no atual governo.
É a segunda vez, em dois dias, que Lula torna públicos seus palpites ministeriais. Na segunda-feira, ele havia feit0 algo semelhante, em Brasília, em favor do ministro da Educação, Fernando Haddad. Izabella Teixeira é bióloga, com doutorado em planejamento ambiental, e funcionária de carreira do Ibama.
Dilma ainda não mencionou nenhum nome, ainda, para o Meio Ambiente. O que se sabe é que Izabella passou pelo teste de fogo no governo Lula durante a votação do relatório com mudanças do Código Florestal, na comissão especial da Câmara, em meados deste ano. Na época, a ministra chamou o relator, o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) para negociar, levou em consideração a necessidade de produtores rurais regularizarem desmatamentos mais antigos e obteve mudanças importantes no projeto, contendo parte das brechas para o aumento do desmatamento no país.

Maior doador de Dilma deve ao BNDES



Grupo JBS, que obteve empréstimo de R$ 3,5 bilhões para bancar compra de empresas estrangeiras, deu R$ 10 milhões para campanha petista

Felipe Recondo, Mariângela Gallucci /BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O grupo JBS-Friboi, que recebeu empréstimo de aproximadamente R$ 3,5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), foi o maior doador da campanha da petista Dilma Rousseff: R$ 10 milhões doados em seis repasses entre agosto e setembro. Apesar do favoritismo e da vitória, a campanha do PT terminou as eleições com uma dívida de R$ 27,7 milhões.
A estratégia oficial do BNDES era transformar os frigoríficos em gigantes mundiais. Os empréstimos, vistos com desconfiança pelo mercado, bancaram a aquisição de empresas estrangeiras pelos frigoríficos brasileiros. E o grupo JBS foi o principal destinatário dos recursos da instituição. Dados recentes apontavam que o BNDES tinha 21% do capital do JBS-Friboi.
O segundo maior doador da campanha foi a Camargo Corrêa, uma das construtoras que toca obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que tiveram irregularidades graves apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A empreiteira doou R$ 8,5 milhões para campanha. Outra empresa responsável por obras com pendências no TCU, a Construtora Queiroz Galvão, foi a terceira maior doadora - R$ 5,1 milhões. A OAS, também responsável por obras em situação irregular do PAC, doou outros R$ 3 milhões para a campanha. Entre os bancos, o Itaú foi o maior doador da campanha de Dilma: R$ 4 milhões.
Os dados fechados de receitas e despesas da campanha de Dilma foram entregues ontem ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Todas as informações, incluindo as notas fiscais, serão analisadas em regime de mutirão por técnicos do TSE e auditores do Tribunal de Contas da União (TCU). As contas deverão ser julgadas até o dia 9 . Se aprovadas, Dilma será diplomada no dia 17 e tomará posse no dia 1.º de janeiro.
No total, a campanha de Dilma arrecadou R$ 148,8 milhões, dos quais R$ 105 milhões foram arrecadados antes do primeiro turno. As despesas da campanha somaram R$ 176,5 milhões.
O que prejudicou as contas da campanha foi a realização do segundo turno. "As empresas se prepararam para o primeiro turno. Houve um grande volume de doações. Mas o orçamento de muitas empresas para as eleições se esgotou", explicou o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff, José de Filippi.
Nas três semanas entre o primeiro e o segundo turno, o comitê da campanha gastou quase R$ 80 milhões. Nesse período, a campanha conseguiu arrecadar apenas R$ 25 milhões.
Os principais gastos foram com a produção de programas de rádio, televisão e vídeo - R$ 39 milhões. Para realizar eventos de promoção da candidata foram consumidos R$ 11,7 milhões. Com publicidade por meio de placas, estandartes e faixas foram gastos R$ 10 milhões. Outros R$ 6,4 milhões foram consumidos com a criação e inclusão de páginas na Internet.
Nas últimas eleições, o presidente Lula deixou uma dívida de R$ 9,8 milhões, o equivalente a 10% dos gastos aa campanha. A dívida deixada agora corresponde a 15% das despesas.
Dívida de Serra. Derrotado, o candidato tucano José Serra acabou a campanha com uma dívida de R$ 9,6 milhões. A campanha arrecadou R$ 120 milhões, mas as despesas somaram R$ 129,6 milhões. Sua maior doação partiu do banco Itaú: R$ 4 milhões. O grupo Gerdau doou R$ 3 milhões para a campanha de Serra e R$ 1,5 milhão para Dilma. O presidente do grupo, Jorge Gerdau, é cotado para assumir um ministério no governo da petista.
Campanha milionária

R$ 148,8 milhões
foram arrecadados para a campanha da presidente eleita Dilma Rousseff (PT)
R$ 176,5 milhões
foram gastos pela candidata petista na campanha eleitoral deste ano
R$ 39 milhões
foram gastos com produção de programas de rádio, TV e vídeo, segundo o comitê petista 

Metade do dinheiro declarado pelo PT saiu dos 27 maiores apoiadores



Contribuições ocultas para Dilma chegaram a R$ 19,7 mi; Serra recebeu ainda mais pela via oculta: foram R$ 32,1 milhões

Daniel Bramatti, José Roberto de Toledo ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S.Paulo
Poucas empresas de poucos setores foram responsáveis pela maior parte do financiamento da campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Metade de todo o dinheiro declarado pela campanha da presidente eleita saiu dos 27 maiores doadores. Destacam-se as empreiteiras e construtoras. Esse setor doou pelo menos R$ 33,7 milhões para os cofres petistas, o que representa mais de 25% de toda a arrecadação.
Dos cinco maiores doadores, três são do ramo de construção - Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e UTC Engenharia. O setor financeiro teve peso menor que outros segmentos da economia na contabilidade oficial. Os bancos doaram, em conjunto, cerca de R$ 8 milhões, ou pouco menos de 6% do total arrecadado pela campanha presidencial petista.
Beneficiados. O setor sucroalcooleiro surpreendeu como um dos principais doadores de Dilma. Foram mais de R$ 10 milhões, o que representa cerca de 8% das doações totais. Os maiores doadores individuais do segmento foram Cosan e Copersucar.
Outros setores que se destacam entre os doadores pessoa jurídica para a campanha de Dilma são os de alimentos e bebidas (Cutrale e Ambev), empreendimentos imobiliários, farmacêutico, industrial e de mineração.
Não por coincidência, os maiores doadores foram de segmentos que se beneficiaram no governo Lula. O PAC beneficiou as empreiteiras, o Bolsa-Família elevou o consumo de alimentos e açúcar, o Minha Casa Minha Vida ajudou empreendedores imobiliários.
Sem rastro. Dilma e Serra receberam, juntos, quase R$ 52 milhões em doações ocultas - em que é impossível rastrear a identidade dos financiadores de campanhas. No caso da presidente eleita, as doações desse tipo chegaram a R$ 19,7 milhões, 14,5% do total arrecadado por sua campanha. Serra recebeu ainda mais pela via oculta: foram R$ 32,1 milhões, ou 30% do que arrecadou.
As doações ocultas resultam de uma triangulação: em vez de depositar o dinheiro na conta do candidato ou do comitê, a empresa ou pessoa física faz uma contribuição para o partido, indicando quem deve ser o destinatário final dos recursos. Como os partidos recebem de diversos doadores e encaminham o dinheiro para diferentes candidatos, fica impossível estabelecer uma ponte entre financiador e financiado.
Dos R$ 114 milhões doados a Dilma por financiadores devidadamente identificados, quase a totalidade (98%) se refere a contribuições de empresas, e 2% de pessoas físicas. 


A crise do setor aéreo - O Estado de S.Paulo



O Estado de S.Paulo
O desprezo ao usuário do sistema de transporte aéreo nacional - mais uma vez demonstrado na crise que afetou as operações da TAM nos últimos dias e impôs perdas aos passageiros - é o resultado quase inevitável da evolução do modelo em vigor no País. Esse modelo chegou ao atual estágio de degradação por causa da conivência, e às vezes do estímulo, das autoridades, de uma regulamentação ainda confusa e da disputa predatória por fatias de um mercado em franca expansão. É uma disputa que pode resultar na morte de empresas, travada diante das autoridades legalmente encarregadas de coibi-la. O registro ininterrupto de prejuízos pelas companhias aéreas nos últimos anos deve servir de advertência para as autoridades: do jeito que está o modelo não terá vida longa.
São diversas as causas dos problemas que tanto irritam passageiros e outros usuários do sistema de aviação civil.
A lentidão e a ineficiência da Infraero em responder a seus compromissos estatutários e a sua responsabilidade social provocam grande acúmulo de recursos não investidos (até outubro, ela tinha feito pouco mais de 20% de todos os investimentos previstos para 2010) e afetam duramente a vida dos passageiros e das empresas que utilizam os principais aeroportos do País.
Pátios de aeronaves, salas de embarque e outros espaços congestionados, sistemas de refrigeração de ar ineficientes e estacionamentos lotados são as evidências da inadequação dos aeroportos. Tudo isso prenuncia problemas mais graves no futuro, em razão do crescimento do número de passageiros.
Mudanças recentes nas regras de defesa dos direitos dos usuários tendem a reduzir os abusos das companhias aéreas - como a resistência em adotar as medidas compensatórias previstas na regulamentação e a prática continuada do overbooking, isto é, a venda de passagens em número superior ao de assentos disponíveis -, mas se mostraram ineficazes para prevenir a ocorrência de problemas graves.
Nos últimos meses, várias companhias enfrentaram dificuldades para colocar suas aeronaves no ar e cumprir os contratos assinados com os usuários. Em julho, foi a Gol que, com dificuldades para escalar tripulações - cujo horário de trabalho é regulado por normas rigorosas -, cancelou muitos voos, o que causou grande confusão. Em setembro, o problema se repetiu com a Webjet. O caso da TAM é o terceiro em quatro meses.
As sanções que a Anac aplicou nos dois primeiros casos são procedentes, mas, como mostrou a ocorrência do terceiro, não bastam para evitar que os problemas se repitam, e sempre com as mesmas alegações - a dificuldade para escalar tripulações quando se cumpre a lei. A incapacidade da Anac de agir preventivamente é um dos fatores que propiciam a repetição de crises.
Mas há outro, que está sintetizado na notícia publicada terça-feira pelo jornal Valor. Desde 2000, as companhias aéreas só registraram lucro em três anos, de 2003 a 2005. Por isso elas acumularam, nesse período, um prejuízo operacional de R$ 5,3 bilhões. Ou seja, as receitas com as vendas de bilhetes não estão cobrindo os custos operacionais dessas empresas.
A entrada de novas operadoras no mercado, a adoção de formas de operação destinadas a reduzir custos, a briga cada vez mais acirrada por passageiros, a leniência das autoridades reguladoras e fiscalizadoras resultaram numa guerra de preços que, como mostra o acúmulo de prejuízos nos últimos anos, ameaça tornar inviável a sobrevivência financeira das empresas.
Tramita no Congresso um projeto de mudança do Código Brasileiro de Aeronáutica, que extingue o regime de concessão - o que exime o governo da responsabilidade de garantir o equilíbrio econômico-financeiro das empresas - e formaliza a liberação dos preços das passagens. Mas mantém a obrigação do poder público de estabelecer normas que impeçam a competição ruinosa das empresas e lhes asseguram o melhor rendimento econômico. Essa obrigação já existe e não está sendo cumprida. 


Ameaça à cadeia produtiva - O Estado de S.Paulo



- O Estado de S.Paulo
O rápido aumento das importações pode afetar - e já há sinais inquietantes disso - a estrutura industrial brasileira, eliminando boa parte dos produtores de insumos e componentes. Esse risco é mostrado com clareza em nova pesquisa da Fiesp. Segundo o levantamento, 55% das fábricas nacionais já se abastecem no exterior e 23% desse grupo compra bens finais. As demais importam matérias-primas, bens intermediários, máquinas e equipamentos. A forte valorização do real tem estimulado a troca de fornecedores nacionais por estrangeiros, mas esse fator, embora importante, serve para explicar apenas parcialmente a mudança. As empresas brasileiras enfrentam outras desvantagens, quando têm de competir com indústrias de fora.
A importação de matérias-primas e bens intermediários, incluídos componentes, pode ser benéfica para a economia nacional e para o conjunto da indústria, quando os participantes do comércio exploram normalmente suas vantagens competitivas. Fabricantes de aviões de todo o mundo usam turbinas de um número muito pequeno de produtores, por exemplo. Há muito tempo a indústria automobilística dos países mais avançados importa peças, componentes e até motores em grande parte originários de países em desenvolvimento. Isso é compatível com as condições de custo e com o uso mais eficiente da mão de obra e da tecnologia disponíveis em cada país. Mas o caso da indústria brasileira não se enquadra nesse conjunto.
Parte de seus atuais problemas de competitividade é comum às empresas de muitos países. A desordem cambial afetou gravemente nos últimos dois anos o comércio internacional. O esforço do governo e do banco central dos Estados Unidos para estimular a economia resultou em forte depreciação do dólar. A moeda chinesa, já subvalorizada, acompanhou esse movimento. Isso aumentou a vantagem do yuan em relação à maior parte das moedas. Alguns governos, como o coreano e o japonês, tentaram neutralizar esses efeitos intervindo no mercado de câmbio. As autoridades brasileiras tentaram limitar, por meio da tributação, o ingresso de aplicações estrangeiras, mas com efeitos muito limitados. As novas medidas podem ter freado a valorização do real, mas não mudaram a tendência.
Nenhum governo pode resolver esse problema isoladamente. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, admite isso publicamente, mas insiste em responsabilizar o Federal Reserve pela desordem cambial, como se a desvalorização artificial do yuan não fosse conhecida há muitos anos.
Uma intervenção direta no mercado de câmbio produziria efeitos inflacionários perigosos e, além disso, o abandono do regime de flutuação tornaria o mercado inseguro e seria um estímulo à especulação. Mas o governo pode atacar outros entraves importantes à competitividade - mais importantes e duradouros que o câmbio.
Esses entraves são conhecidos, genericamente, e seria preciso desenhar uma estratégia com medidas de curto e de médio prazos para removê-los. Uma ampla mudança tributária tomaria tempo, mas pode-se pensar em medidas de efeito rápido, como a pronta devolução de créditos fiscais (um velho problema) e a desoneração, pelo menos parcial, da folha de pagamentos. Uma política racional de crédito, sem cartas marcadas e sem benefícios dirigidos a um número restrito de eleitos, também poderia facilitar a vida das empresas. Os bancos oficiais têm meios para isso. Falta repensar sua forma de atuação.
A indústria poderia propor medidas de efeito rápido, indicando os benefícios de cada uma - e sem se concentrar em barreiras e subsídios. A proteção pode ser importante, mas é preciso usá-la com eficiência e de acordo com as normas internacionais. Subsídios podem ser contraproducentes e, em geral, favorecem alguns privilegiados. Entidades da indústria têm produzido estudos sobre competitividade, mas a maior parte das propostas envolve medidas de médio e de longo prazos, algumas politicamente complicadas. É hora de pensar numa pauta prática e de fácil execução. 


A 'reforma ministerial' - O Estado de S.Paulo



- O Estado de S.Paulo
Nunca se deve subestimar o gosto do presidente Lula pelo som da própria voz. Ainda assim, é improvável que neste seu derradeiro mês no Planalto ele ainda tenha tempo de proferir uma falsidade comparável às suas reiteradas garantias de que não indica nomes para Dilma Rousseff porque o futuro Ministério tem de ter "a cara" dela. Teria se a sucessora tivesse barba e bigode. De fato, o que se desenrola em Brasília nas últimas semanas, à vista do País, é menos a constituição de um novo Gabinete, de acordo com as preferências pessoais e os compromissos políticos de um líder em vias de assumir a Presidência, do que outra reforma ministerial do governo Lula.
Foi ele, afinal, quem manteve nos seus lugares - por enquanto - o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o titular da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Dilma também fez a vontade de Lula trazendo o antecessor de Mantega, Antonio Palocci, para a Casa Civil, o coração do poder. Nesse caso, aliás, pode-se falar em indicações em sequência. Foi Lula quem instalou o ex-ministro na cúpula da campanha da sua apadrinhada, de onde ele desalojou o amigo mais próximo da candidata, Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte. Passada a eleição, nada mais natural que Palocci conduzisse a transição de governo.
A lista continua. Por escolha do presidente, ficará no Planalto, porém em outra sala, o seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, transferido para a Secretaria-Geral da Presidência. Ainda graças a Lula, sairá do Planalto, em direção à Esplanada, a assessora Miriam Belchior, promovida a ministra do Planejamento - cujo titular, Paulo Bernardo, deverá por sua vez migrar para as Comunicações. Lula ainda se movimenta para manter no governo, embora não mais no Banco Central, o atual presidente Henrique Meirelles. Na montagem da coligação dilmista, Lula tentou emplacar o seu nome como vice, mas o PMDB exigiu Michel Temer.
Agora, com o aval do patrono de Dilma, Meirelles ocuparia o futuro (e cobiçado) Ministério dos Portos e Aeroportos. Lula também aconselhou a sua pupila a conservar Nelson Jobim na Defesa e Marco Aurélio Garcia como assessor internacional. Teria feito o mesmo por Carlos Luppi no Trabalho e por Sérgio Gabrielli na Petrobrás. Em relação a todos eles, as preferências do presidente ou nem precisavam ser enunciadas ou foram transmitidas com relativa discrição. Caso excepcional é o do ministro da Educação, Fernando Haddad, cujo cargo, vorazmente disputado pela companheirada paulista, parecia fadado a mudar de mãos, depois dos sucessivos fiascos do Enem.
Os políticos petistas não gostam do acadêmico Haddad porque ele não lhes dá a atenção de que se julgam merecedores. Mas o presidente gosta de sua atuação - a ponto de transformar três eventos da área do ensino, anteontem, em comícios de campanha ministerial. Foi no primeiro deles que Lula deu o seu show de hipocrisia ao negar de pés juntos que interferira na montagem do Ministério. O que, aliás, vem repetindo todos os dias, desde que a formação do Ministério de Dilma passou a ocupar lugar predominante no noticiário político, recorrendo, como sempre, às metáforas futebolísticas tipo "o técnico tem de ter liberdade para mudar seu time".
Já se escreveu que jamais um presidente brasileiro interferiu tanto na composição da equipe do sucessor. Mas a verdade é que a presente conjuntura é única na história da democracia brasileira. Antes de 1964, só um presidente (Vargas) viu eleger-se quem apoiava (Dutra). Depois da ditadura, Sarney herdou o governo que Tancredo montara, Itamar completou o mandato de Collor, com a glória do lançamento do Real, Fernando Henrique e Lula foram os seus próprios sucessores. Para completar o ineditismo, elege-se presidente uma figura que nunca disputou um mandato, carente de base política própria, escolhida, construída e conduzida à vitória por seu mentor.
Mesmo que Lula fosse honesto ao falar em "rei morto, rei posto", seria apenas natural que Dilma Rousseff fosse bater à sua porta na hora de escalar o seu time. O Brasil terá quatro anos para saber até onde irá essa dependência. 


Lições da guerra carioca - Ricardo Vélez Rodríguez


Ricardo Vélez Rodríguez - O Estado de S.Paulo



Passada a intervenção policial e militar que pôs fim ao império do tráfico no Complexo do Alemão e nas favelas que integram a comunidade de Vila Cruzeiro, na Penha, vale a pena refletir acerca do que do episódio se pode tirar a limpo, em termos de políticas de segurança pública, a fim de que, em outras oportunidades, não se repitam erros do passado e a população se beneficie com ações mais bem planejadas no combate à criminalidade.
A primeira lição que se depreende é a de que não existe, verdadeiramente, crime organizado, mas Estado desorganizado. A imagem da fuga atordoada dos meliantes pela mata que separa os dois conjuntos de favelas, repassada por duas cadeias de TV para o mundo todo, está a provar essa assertiva. Um "exército" medianamente treinado não debanda dessa forma. Os bandidos, fortemente armados, não tinham um "plano B" para a eventualidade de a Vila Cruzeiro ser invadida. Ponto positivo para a cidade do Rio de Janeiro, cujo pior inimigo não constitui propriamente um "exército", mas um bando de meliantes que fogem quando as autoridades decidem pôr a polícia no seu encalço, com o apoio das Forças Armadas.
Diferente foi a situação enfrentada pelo Exército e pelas forças policiais colombianas, no início desta década, em Bogotá e em Medellín, quando da invasão aos santuários do crime: defrontaram-se com forças fortemente treinadas em táticas de guerrilha urbana, que, consequentemente, trouxeram sérias baixas à população e aos soldados.
A segunda lição é que o apoio das Forças Armadas no combate ao narcotráfico é importante. O elemento diferenciador das duas intervenções da semana passada em relação às anteriores está justamente aí: quando se dá o apoio das Forças Armadas, no cerco aos bandidos e na logística militar, a ação repressiva é dissuasória e eficaz.
Muitas pessoas criticam o fato de a aviação militar não ter aproveitado a fuga desordenada dos meliantes para metralhá-los a partir dos helicópteros. Imaginam os leitores a grita que estaria sendo feita neste momento, pelos defensores dos direitos humanos, caso isso tivesse sido realizado? O uso dos equipamentos das Forças Armadas restringiu-se ao cerco e à tática intimidatória que os tanques, os veículos blindados da Marinha e do Exército e os soldados das duas corporações exerceram, em apoio ao Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e à Polícia Civil. Claro que houve falhas no que tange a impedir a fuga de meliantes do Complexo do Alemão "disfarçados" de operários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como foi alegado. Falha que vai dar dores de cabeça à polícia e à cidadania nos próximos meses, pois esses bandidos, livres, voltarão a se aglutinar em algum outro conjunto de favelas, possivelmente na Baixada Fluminense. O cordão de isolamento ao redor do Complexo do Alemão teve esse furo. É importante que os responsáveis analisem essa falha para que não se repita em episódios futuros.
A terceira lição consiste na constatação de que é perfeitamente possível uma ação de grande envergadura, que abarque Polícia Civil, Polícia Militar e Forças Armadas, sem que seja quebrada a unidade de comando e garantindo a eficiência e rapidez das decisões. O acompanhamento dos fatos pelas autoridades ocorreu em tempo real e utilizando modernos aparelhos de videocomunicação para contato com as diversas unidades envolvidas na ação. O comando da operação ficou por conta da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, sem que isso significasse atrito com os quadros das Forças Armadas. Ponto positivo.
Vale a pena lembrar que nas cidades colombianas já se havia posto em prática mecanismo semelhante. O comando das ações policiais de combate ao narcotráfico é do prefeito metropolitano. Para que isso se tornasse possível foi feita, em 1993, uma reforma no texto da Constituição de 1991.
Quarta lição: foi muito eficaz a mobilização de funcionários públicos civis da área da saúde para garantir o apoio logístico às duas operações, pondo à disposição da Secretaria de Segurança do Estado os leitos hospitalares necessários, bem como o serviço de ambulâncias. Felizmente, não foi necessário fazer uso de tais dispositivos, em decorrência da rapidez e da eficácia da ação repressiva.
Quinta lição: o apoio decidido da cidadania às duas ações desenvolvidas pela Secretaria de Segurança Pública, que se manifestou notadamente na utilização, por parte dos cidadãos, do Disque-Denúncia para identificar os meliantes. Causou emoção aos telespectadores assistir aos testemunhos de humildes cidadãos e donas de casa, que expressavam a sua alegria por se verem livres do jugo do narcotráfico, imposto a ferro e fogo às populações, à margem da vida cidadã. A conquista da liberdade foi, certamente, o fator mais importante, do ângulo humano, para essas populações da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão. E nessa conquista a rápida ação dos policiais e dos soldados das Forças Armadas foi decisiva.
A sexta lição fica por conta do importante papel desempenhado pela imprensa em todos esses episódios, informando, passo a passo, os cidadãos a respeito do que se estava passando e ajudando a orientar os habitantes das comunidades envolvidas acerca do que deveriam fazer para entrar e sair com segurança.
A democracia ganhou com esse triunfo das autoridades. O efeito positivo certamente será potencializado com a efetivação das políticas de inclusão social que os governos estadual e municipal desenvolverão no decorrer das próximas semanas, elevando a autoestima dos cidadãos outrora reféns do narcotráfico. Esse efeito positivo já se observa nas comunidades onde foram instaladas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).
COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA (UFJF) 

Jantares, manifestos e o twitter na sucessão


Jotabê Medeiros/AE
Jotabê Medeiros/AE
Jantar na Vila. Juca Ferreira doi o centro de jantar que fechou restaurante em São Paulo anteontem, e agregou mais apoios


Como nunca antes, atos organizados tentam influir na escolha de ministro

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo
Enquanto o PT fala em "reintegração de posse" do Ministério da Cultura, a classe artística dá mostras de que não aceita o conceito de propriedade privada na cultura. Artistas da ópera, do samba, da música erudita, da literatura, da fotografia, da dança, museólogos e diversos outros, quase todos de colorações partidárias diferentes, lotaram anteontem à noite um restaurante na Vila Madalena, em São Paulo, para um ato de apoio à continuidade do atual ministro, Juca Ferreira, na pasta da Cultura.
"Defendo a permanência dele porque ele acabou com as preferências político-partidárias no ministério. Nunca ninguém precisou fazer lobby na gestão Gil-Juca, todo mundo é atendido igualitariamente", defendeu o maestro João Carlos Martins, um dos organizadores do jantar, que integrou governo de Paulo Maluf no passado. "A cultura, há muito tempo, não via um ministro que fosse tão ativo e republicano, que falasse com todo mundo, gregos e troianos", elogiou José Roberto Walker, integrante dos quadros culturais dos governos tucanos em São Paulo.
Estavam presentes, entre outros, Fernanda Feitosa (da feira SP-Arte), Hulda Bittencourt (Cisne Negro Ballet), Márika Gidali (coreógrafa do Stagium), Abel Rocha (maestro), Agnaldo Farias (curador), Celine Imbert (soprano), Ricardo Ohtake (curador e ex-secretário de Cultura de São Paulo). "Com o apoio dessa gestão, criamos 151 redes de agitadores culturais da fotografia no País, em 19 Estados. O MinC, pela primeira vez, funciona republicanamente. Ninguém aqui está preocupado com o partido ao qual ele pertence, mas ao modo democrático como conduz a gestão", disse o fotógrafo Iatã Cannabrava.
O jantar em São Paulo foi mais um entre os numerosos eventos do que está sendo conhecido como #FicaJuca, um movimento suprapartidário que colhe assinaturas na internet (mais de mil adesões) e monta bases de apoio pelo País. "Juca tem recebido apoio semelhante no Rio Grande do Sul, Bahia, Sergipe e Rio. É apoio a um projeto que ampliou, aprofundou a política cultural e libertária nacional", escreveu no Twitter Nilmário Miranda, da Fundação Perseu Abramo.
Há duas semanas, o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, organizou em Minas um evento semelhante. Em São Paulo, gente como os empresários Jorge Gerdau e Milu Vilela (do Itaú) apoiam Juca publicamente. No Rio de Janeiro, o suporte inclui todo o leque artístico: Cícero Sandroni, jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, divulgou carta de solidariedade, enquanto Fernanda Abreu prepara um almoço, hoje, num anexo do restaurante Nova Capela, na Lapa, a partir do meio-dia.
Muito do movimento tem a ver com o temor de que algum dos nomes propostos pelo PT venha a ser efetivamente nomeado pela presidente eleita, Dilma Rousseff. A escolha deve ser divulgada até o dia 10 deste mês. Os mais fortes, no momento, são Emir Sader, Ideli Salvatti, Angelo Vanhoni e Marilena Chauí. A senadora Ideli Salvatti também já participou de jantares e encontros semelhantes para sentir a receptividade do mundo artístico ao seu nome. Não tem sido bem recebida.
Juca Ferreira está licenciado do Partido Verde (PV), do qual é um dos fundadores, até metade de 2011. Rompeu com as diretrizes nacionais do partido para apoiar a candidatura de Dilma Rousseff à presidência. Sua situação é delicada: caso não continue no governo, teria dificuldades em seu futuro político na Bahia, que ensaia um movimento curioso: o atual prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PMDB), fala em ir para o Partido Verde. "Se isso acontecer, dificilmente permaneço no PV", afirmou.
A continuidade de Ferreira, segundo analistas da área, seria crucial para garantir o trâmite de projetos importantes no Congresso, que ele negociou nos últimos anos (como o Vale Cultura, que espera votação na Câmara para ir à sanção presidencial). Por conta disso, mesmo nomes que estão na chamada "bolsa de apostas" para o MinC, como o do ator Paulo Betti, defendem a manutenção de Juca. "Juca Ferreira que soube dar continuidade ao desempenho do ministério com grande afinco e competência, culminando com a aprovação do Plano Nacional de Cultura", afirmou Betti.
"Agora qual é a urgência? Torcer pela continuidade desse trabalho. O ministro Juca Ferreira não está de brincadeira e vai levar adiante essa bandeira. Torço por isso", disse o cantor e compositor baiano Moraes Moreira." Se o novo governo quiser intensificar os acertos do governo Lula na geopolítica cultural, tem no ministro Juca o seu melhor articulador. A cultura brasileira sai ganhando de goleada. Fica, Juca", afirmou o cantor Chico César. "Apolítico e com foco no diálogo entre diferentes vetores de comunicação cultural, tornou-se realidade a inclusão da moda, arquitetura, fotografia e design nas políticas publicas", elogiou o estilista Ronaldo Fraga. "Antes, a cultura era ornamento, moeda de troca, fração do poder. Com Gil e Juca, ganhou força nova, ganhou cara própria, fez acontecer", disse o compositor José Carlos Capinam. 


Lula diz que telegramas vazados pelo Wikileaks são 'insignificantes'



Presidente diz que prefere acreditar em ministro a dar crédito a comunicado de um embaixador americano.


BBC Brasil

Para Lula, comunicados sobre o Brasil não merecem ser levados a sério
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira que os telegramas diplomáticos vazados pelo site Wikileaks são "insignificantes" e que não merecem ser "levados a sério".
Desde segunda-feira o site vem divulgando uma série de correspondências realizadas nos últimos com comentários de diplomatas americanos sobre diversos governos, dentre eles o Brasil.
Os documentos trazem, por exemplo, uma descrição da política externa brasileira como "antiamericana", além de críticas à legislação brasileira por não tipificar o crime de terrorismo.
"As coisas que eu vi sobre Brasil são tão insignificantes que não merecem ser levadas a sério", disse o presidente, após participar de um evento no Maranhão.
De acordo com reportagem publicada nesta terça-feira pelo jornal Folha de S. Paulo, um dos telegramas descreve um almoço entre o embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Clifford Sobel, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim.
Segundo o jornal, Jobim teria contribuído para "reforçar" a imagem "antiamericana" da diplomacia brasileiro por meio da afirmação de que o ministro Samuel Pinheiro Guimarães, então secretário-geral do Itamaraty, "odeia os Estados Unidos".
"Não sou obrigado a acreditar num telegrama de um embaixador americano em vez do meu ministro", disse o presidente.
Por meio de nota, Jobim admitiu ter conversado com o embaixador americano sobre Pinheiro Guimarães, mas que na ocasião teria descrito o diplomata brasileiro como um "nacionalista, um homem que ama profundamente o Brasil".
Percepção
O chanceler Celso Amorim também minimizou o teor dos telegramas. Segundo o ministro, que está em visita a Washington, os documentos refletem "percepções subjetivas" da diplomacia norte-americana.
"Muita gente tem percepção formada na Guerra Fria e não percebe um mundo novo, multipolar. Mas isso nao quer dizer que não sejamos amigos dos Estados Unidos", disse o ministro, que está na capital americana para receber um prêmio da revista Foreign Policy como 6º maior pensador global.
Sobre a o encontro entre Jobim e Sobel, Amorim disse que todo desejo de qualquer embaixador é "passar por trás do Itamaraty". "E nós até deixamos e acompanhamos, para ver o que está acontecendo", acrescentou.
O motivo, segundo ele, está no fato de o Ministério das Relações Exteriores ser o "principal guardião" da soberania brasileira.

O canto da cidade de Jaime Lerner


Esta palestra de Jaime Lerner circula no mundo pela internet. Resume de forma precisa e bem-humorada os conceitos fundamentais de Lerner sobre a vida urbana.


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fonte: Fábio Campana