segunda-feira, 18 de março de 2013

Coluna da Ouvidoria - A índia e os ciganos


Da Agência Brasil

Coluna da Ouvidoria - A índia e os ciganos

18/03/2013 - 13h46
Brasília - O grau de precisão das informações selecionadas para compor uma matéria influi na maneira como os leitores compreendem o assunto abordado. Quando os termos utilizados na reportagem são vagos e sem fatos concretos que sirvam de referência, o leitor aceita ou rejeita as versões apresentadas ou fica na dúvida, sem subsídios para buscar uma resposta. A imprecisão de informações foi apontada por um leitor, que prefere permanecer anônimo, em uma matéria publicada pela Agência Brasil no dia 6 de março, Promessa de uma vida melhor atrai as vítimas do tráfico de pessoas [1]. Ele questionou a caracterização dos sequestradores como “um grupo de ciganos”. Segundo o leitor, essa referência pode ser tendenciosa, pois as informações na matéria são insuficientes para compreender o caso e os ciganos já são um grupo bastante estigmatizado.
A Diretoria de Jornalismo respondeu: “Agradecemos as ponderações feitas pelo leitor e nos comprometemos a buscar mais informações sobre o caso, a denúncia feita pelo Programa de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de Minas Gerais. De toda forma, esclarecemos que não foi intenção nossa usar o termo cigano pejorativamente e acreditamos que não o fizemos. O termo faz parte do relato da entrevistada, que acompanhou a índia depois do ocorrido e também as investigações”.
A matéria da Agência Brasil trata do caso de uma jovem considerada vítima do tráfico de pessoas: “A pequena índia tinha apenas 12 anos quando não resistiu às promessas de uma vida melhor e deixou a aldeia no interior de Goiás para seguir viagem com um grupo de ciganos. Quase sete meses depois de seu desaparecimento, ela foi encontrada em Minas Gerais. Nenhuma promessa foi cumprida pelo grupo que, ao contrário, violou vários direitos da jovem, segundo relatos de representantes do Programa de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de Minas Gerais, um dos responsáveis pela solução do caso. Não ficou confirmada a exploração sexual da jovem, mas ao longo desses meses ela sofreu agressões verbais e físicas. 'É um caso muito comum de tráfico doméstico de pessoas', contou a diretora do programa mineiro de enfrentamento ao crime”.
Expressões como “não resistiu às promessas de uma vida melhor”, “deixou a aldeia […] para seguir viagem com um grupo de ciganos” e “sofreu agressões verbais e físicas” pouco esclarecem para o leitor o que aconteceu, menos ainda se as circunstancias permitem caracterizar o caso como de tráfico de pessoas. Quais promessas foram feitas? Quais foram as atividades e as intenções do grupo com que ela viajou? O que motivou a saída dela da aldeia? Ela era vítima de violência doméstica? Ela fugiu de casa? Houve conivência dos pais e parentes dela com os supostos aliciadores? São perguntas relacionadas à constatação de que certos grupos na sociedade são especialmente vulneráveis ao aliciamento para o tráfico de pessoas.
De acordo com a Norma de Jornalismo da EBC, “o mais alto valor de qualquer empresa de comunicação é a credibilidade. Por isso, a precisão e a objetividade devem ser obstinação. O rigor com a exatidão de dados e informações é obrigatório”[2].
Em relação à discriminação, a Norma de Jornalismo da EBC manda que “a identificação das pessoas por raça, credo, nacionalidade, status, orientação sexual ou doença deve ser feita apenas quando relevante para o conteúdo da notícia. As pautas da EBC rejeitam as situações de constrangimento que desvalorizam quaisquer identidades ou grupos sociais legítimos, seja por gênero, raça, etnia ou orientação sexual”. Portanto, o questionamento do leitor procede, já que neste caso a expressão “ciganos”, que lembra velhas estórias de rapto de crianças,  pode não ter nada a ver com os fatos relatados na notícia.

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