segunda-feira, 18 de abril de 2011

Editoriais = Folha de S. Paulo - Ajuste emergente



Como o Brasil, China eleva juros e reduz crédito contra a inflação, mas, com alta taxa de investimento, não tem restrição de oferta interna
Uma das heranças da crise financeira de 2008 foi consolidar um cenário de crescimento econômico diverso entre países desenvolvidos e o mundo emergente.
Os primeiros, em sua maioria, passam por uma recuperação lenta, com amplo excesso de capacidade produtiva, inflação baixa e juros próximos de zero. Nos EUA, por exemplo, dois anos depois da crise a produção industrial ainda se encontra 7% abaixo do pico de 2008. Não é à toa que o banco central americano continua jogando dinheiro na economia, o que pressiona a inflação global.
Essas pressões, agravadas pelo aumento de 60% nos preços dos alimentos desde meados do ano passado, complicam a gestão econômica em países tão dispares quanto Brasil, China e Índia. Todos enfrentam o problema oposto: excesso de crescimento e necessidade de apertar juros e crédito.
Na China, o governo tem implantado medidas de contração. O objetivo é desacelerar o crescimento para 9% em 2011 (contra 10,3% no ano passado). Para tanto, assim como o Brasil, utiliza a combinação de aumentos de juros (quatro altas de 0,25 ponto percentual), controle seletivo de crédito com foco na construção civil (no caso brasileiro o alvo é o crédito para consumo) e aumento substancial nos depósitos compulsórios dos bancos.
Há sinais incipientes de que a estratégia do governo chinês estaria obtendo algum sucesso. O crescimento do PIB atingiu 9,4% no primeiro trimestre, em relação ao trimestre anterior, o que indica pequena desaceleração (a alta no quarto trimestre de 2010, na mesma base de comparação, fora 10,7%). A persistir esse padrão, o PIB deste ano ficaria bem próximo ao objetivo do governo.
Por outro lado, a inflação ainda permanece elevada, em 5,4% nos últimos 12 meses, bem acima da meta oficial de 4%. É a taxa mais alta em quase três anos.
Lá como cá, o governo conta com a perda de ímpeto dos preços de alimentos para reduzir a inflação na segunda metade do ano, um quadro provável, mas não garantido. Para evitar surpresas, a Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional reuniu 17 associações industriais e determinou o congelamento temporário de alguns preços.
Dificuldades para reduzir a inflação são comuns, portanto, a Brasil e China. Mas os chineses contam com uma vantagem para lidar com o problema: a taxa de investimento muito superior à brasileira -cerca de 45% do PIB, contra 18,4% no Brasil.
O resultado é que a economia chinesa tem uma tendência crônica ao excesso de produção e à competição agressiva de preços. Basta pequena desaceleração para que a inflação (fora a dos alimentos) ceda com rapidez.
No Brasil, ao contrário, a economia enfrenta pressões de custo e de demanda em uma situação de baixo crescimento da oferta interna, o que dificulta o trabalho do nosso Banco Central.

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