domingo, 18 de abril de 2010

Sem emprego, população apoia construção de usina

Moradores esperam que hidrelétrica de Belo Monte proporcione trabalho e indenização

"Quem é contra a usina é contra porque tem emprego, tem ajuda. Os índios recebem ajuda do governo, nós não", afirma oleiro

DO ENVIADO ESPECIAL A ALTAMIRA (PA) na Folha de São Paulo

O desemprego crônico é o principal argumento para que grande parte da população pobre da periferia de Altamira, no Pará, apoie a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Não há dados oficiais, mas a falta de trabalho na região é visível, sobretudo nos bairros afastados e naqueles que serão diretamente afetados pelo lago da usina.
As questões indígena ou ambiental são vistas pelos locais como argumentos de quem tem sobrevivência garantida. Não é o caso de boa parte dos 60 mil habitantes de Altamira.
A principal atividade econômica da região minguou. A morte da missionária Dorothy Stang, em Anapu, em 2005, e a Operação Arco de Fogo, promovida pelo Ibama e pela Polícia Federal, resultaram na paralisação da indústria madeireira, a grande geradora de empregos em toda a região. A atividade cessou, mas nada surgiu no lugar. "As serrarias foram parando, parando, hoje não serram nem cabo de vassoura", afirma o desempregado José Luiz Alves, 50.
Alves transportava madeira das áreas desflorestadas para as serrarias. Hoje, vive de bico. A usina de Belo Monte é a sua última esperança. "Não fui embora por causa da usina. Estou esperando o projeto sair do papel, e, se não sair, não tenho opção a não ser ir embora daqui", diz.
Oleiro, Ricardo Silva da Cruz, 31, também torce por Belo Monte. Não por simpatia, mas por necessidade. A área de extração de argila usada na produção de tijolos está inundada e, fora isso, trabalho não existe. Ele mora numa palafita, no bairro conhecido como "Invasão dos Padres".
É um dos bairros mais populosos de Altamira, que submerge com a subida do rio no período de chuvas. A casa de madeira será atingida se a usina for construída, mas Cruz espera a indenização e quem sabe a oferta de emprego na obra.
Sobre a visita do diretor James Cameron ("Avatar") à região, Alves achou oportunista. Cameron participou de manifestações contra a construção da usina hidrelétrica.
"Quem é contra a usina é contra porque tem emprego, tem ajuda. Os índios recebem ajuda do governo, nós não. E, para o povo de fora, é fácil também. Eles acabaram com tudo, agora querem ser donos da Amazônia", diz.
(AGNALDO BRITO)

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